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Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

26/06/2014    

 

Crítica

Um homem em busca da verdadeira história de seu pai, que está prestes a morrer. Os limites da imaginação de alguém que vive atrás de algo mais, do surpreendente, do irresistível. A diferença entre o desconhecido apaixonante e o comum aborrecido. As histórias que vivemos no decorrer de nossas vidas, sejam elas ilustradas pelo pincel da fantasia ou postas contra a luz do verossímil. Qual desses dois mundos é mais agradável de se habitar? E, mais importante: é possível condenar aqueles que se refugiam num por não serem capazes de enfrentar o outro? Estas são algumas das questões discutidas em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, o mais íntimo e pessoal de todos os longas já dirigidos por Tim Burton.

Conceitos de realidade e ilusão são colocados à prova nesta encantadora obra assinada por um dos maiores diretores de Hollywood da atualidade. Burton revisita suas origens, a infância problemática e a complicada relação familiar para abrir espaço a uma história sobre hojes, ontens e amanhãs, filhos que buscam em todos os outros aquilo que apenas o pai, aquele que está mais próximo, poderá lhe oferecer. É um momento de ruptura, quando o novo se torna velho, que o imediato ganha nova e delicada leitura, que Peixe Grande se estabelece como um trabalho diferenciado dentro de um universo que tanto já ofereceu, mas ainda guarda possibilidades múltiplas a serem exploradas. Talvez não seja necessariamente o ponto alto da carreira do realizador, mas de fato se coloca como um dos mais completos e bem acabados exemplos de tudo que esse artista é capaz de produzir e idealizar.

Baseado no best seller escrito por Daniel Wallace, Peixe Grande tem como ponto de partida a história de Will Bloom (Billy Crudup), que está num momento crucial de sua vida: após ter chegado à maturidade sem ter uma ideia clara de quem realmente é, aos poucos começa a perceber que só poderá dar um início concreto à própria família – é recém casado, com um filho à caminho – quando acertar todas as questões pendentes que existem entre ele e o pai. Edward Bloom (Albert Finney), por sua vez, é daquele tipo de homem que todo mundo conhece, fácil de se gostar, mas difícil de se conhecer de verdade. Vive contando histórias fantasiosas a seu respeito, relatos que encantam na mesma proporção que exigem uma grande dose de boa vontade – ou ingenuidade – para que se tornem minimante críveis. Mais ou menos como a história do pescador que nunca volta no final do dia de mãos vazias, por mais que seja difícil se convencer de tamanha boa sorte.

John August, a partir deste roteiro, se tornou parceiro habitual de Tim Burton, tendo trabalhado em quase todos os filmes seguintes do cineasta. Sinal do bom entendimento entre os dois. Afinal, o roteirista é hábil em combinar o universo fantástico tão caro ao diretor com um enredo puramente humano. A união destes dois extremos resulta em um conjunto muito gratificante. Quando o filho decide finalmente ter uma conversa esclarecedora com o pai, o encontra seriamente doente, prestes a morrer. Will cresceu ouvindo – e acreditando – nas versões mágicas dos fatos que Ed lhe contava, até o ponto em que se rebelou – afinal, nada daquilo poderia ser verdade – o provocou um consequente afastamento. Mas esse é um erro que ainda pode ser consertado. É o momento de se colocar os pingos nos ‘is’. Antes, porém, algo precisa ficar claro: até que ponto Ed realmente inventava suas histórias ou apenas narrava o que de fato havia visto e vivido?

Os personagens de Peixe Grande tanto podem viver em uma realidade à parte da nossa como serem nossos vizinhos de porta. Habituado a discorrer sobre cenários mais deslumbrantes e fantásticos, aqui o realizador se mostra mais contido, porém nunca limitado. As aventuras vividas por Ed Bloom (que, na juventude, é interpretado pelo sempre competente Ewan McGregor, substituindo com tranquilidade o protagonista habitual do cineasta, Johnny Depp) discorrem sobre gigantes, cidades perfeitas onde todos são felizes, bruxas mal-humoradas, lobisomens donos de circos, irmãs siamesas, bebês que saltam de dentro da barriga de suas mães na ânsia de nascerem, e poetas que se tornam milionários em Wall Street. Entre as mais diversas fábulas, há ainda a do amor perfeito, aquela vivida por ele mesmo com sua esposa, que ganha corpo através das belas Jessica Lange, no tempo atual, e Alison Lohman, na passado. O relato sobre como se conheceram e se apaixonaram é rico e apaixonante, e a presença do genial Danny DeVito (de Batman: O Retorno, 1992) nesta sequência é um acréscimo e tanto. Um exemplo preciso do que a criatividade, quando canalizada e bem explorada, é capaz de atingir.

Peixe Grande é um dos filmes mais sentimentais da obra de Burton, se aproximando muito do espírito visto em Edward Mãos de Tesoura (1990). Mas o diretor vai além, e com inteligência e perspicácia, evita clichês óbvios, sem resvalar na pieguice comum a um assunto como esse: o acerto de contas familiar. Afinal, o que busca é mostrar que, uma vez que a crença exista em nós, tudo pode ser possível. Isso, é claro, aliado a um amor condicional, seja por um ente familiar, pelo amor eterno da pessoa amada, pela vida em si ou mesmo por nosso trabalho. Assim como Burton é enquanto cineasta, algo que demonstra aqui com maestria em todos os aspectos.

Nota da crítica

4.5/5

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Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Big Fish

PAÍS DE ORIGEM: EUA

GÊNERO: Drama, Fantasia

DURAÇÃO: 125 min

ANO: 2003

DIREÇÃO: Tim Burton

ROTEIRO: John August

EDIÇÃO: Chris Lebenzon

FOTOGRAFIA: Philippe Rousselot

MÚSICA: Danny Elfman

DIREÇÃO DE ARTE: Roy Barnes, Jean-Michel Ducourty, Robert Fechtman, Jack Johnson, Richard L. Johnson

FIGURINO: Colleen Atwood

PRODUÇÃO: Bruce Cohen, Katterli Frauenfelder, Dan Jinks, Arne Schmidt, Richard D. Zanuck

ESTÚDIO: Columbia Pictures Corporation, Jinks/Cohen Company, Zanuck Company

ELENCO: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Helena Bonham Carter, Alison Lohman, Robert Guillaume, Marion Cotillard, Matthew McGrory, David Denman, Missi Pyle, Ada Tai, Arlene Tai, Steve Buscemi, Danny DeVito

Sinopse

Ed Bloom (Albert Finney) é um grande contador de histórias. Quando jovem Ed saiu de sua pequena cidade-natal, no Alabama, para realizar uma volta ao mundo. A diversão predileta de Ed, já velho, é contar sobre as aventuras que viveu neste período, mesclando realidade com fantasia. As histórias fascinam todos que as ouvem, com exceção de Will (Billy Crudup), filho de Ed. Até que Sandra (Jessica Lange), mãe de Will, tenta aproximar pai e filho, o que faz com que Ed enfim tenha que separar a ficção da realidade de suas histórias.

Curiosidades

- Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original;

- Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical, Melhor Ator Coadjuvante (Albert Finney), Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original, por “Man of the Hour”;

- Indicado ao BAFTA nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante (Albert Finney), Melhor Direção de Arte, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Cabelo e Maquiagem e Melhor Direção;

- Orçado em US$ 70 milhões, faturou mais de US$ 122 milhões nas bilheterias de todo o mundo;

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