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Passageiros

31/12/2016    

 

Crítica

Depois de filmes como os recentes Gravidade (2013) e Interestelar (2014), o gênero ficção científica parecia ter voltado às boas graças com a crítica dos tempos de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) ou mesmo Alien: O Oitavo Passageiro (1979). Porém, para cada A Chegada (2016), ainda em cartaz nos cinemas, infelizmente é preciso reconhecer que existe um ou vários como esse Passageiros, longa que demonstra problemas logo no seu conceito, que dirá em sua realização. A trama criada por Jon Spaihts (o mesmo dos superiores Prometheus, 2012, e Doutor Estranho, 2016) é equivocada em mais de um nível de leitura – o que explica ter circulado por Hollywood desde 2007, e só agora ganho uma chance nas telas. É de se lamentar, no entanto, que nem mesmo os talentos envolvidos tenham sido capazes de tornar a produção digna dos interesses levantados.

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Recusado por astros como Keanu Reeves, Reese Witherspoon, Rachel McAdams e Emily Blunt, Passageiros acabou ganhando sinal verde apenas quando a oscarizada Jennifer Lawrence e o neogalã Chris Pratt assumiram os postos de protagonistas. Os dois estão em cena a maior parte do tempo – mas não o tempo todo, como o trailer enganador tenta vender ao espectador mais desatento. Isso porque estão em uma nave espacial, a Avalon, que está levando centenas de pessoas em estado de hibernação ao uma nova Terra, onde a vida seria melhor e mais confortável, longe do estado de deterioração em que nosso planeta irá se encontrar no futuro. Totalmente automatizada, a espaçonave começa a sofrer anomalias em seu funcionamento após passar por uma chuva de meteoros. O primeiro sinal de que algo está errado é quando a cápsula que guarda Jim (Pratt) para de funcionar e ele acorda. Desperto, descobre que faltam 90 anos para chegarem ao destino final. Ou seja, acaba de perceber que foi condenado a uma existência de solidão em pleno espaço, sem ninguém para lhe fazer companhia além do robô bartender que atende pelo nome Arthur (Michael Sheen, o melhor do elenco, ainda que com pouco à disposição) e nunca abandona do próprio posto.

É importante, neste ponto, perceber como as coisas estão de desenrolando. Ou seja, não temos um caso de Adão e Eva dando início a um novo estilo de vida. Afinal, esse Adão aqui está sozinho. Somente ele acordou de modo aleatório. Aurora (Lawrence) não está atenta no outro lado da embarcação e prestes a cruzar com ele. Pelo contrário, assim como todos os demais, ela segue dormindo. A decisão de tirá-la do sono profundo, portanto, é inteiramente dele, que a escolhe dentre tantas, e após muito considerar e refletir, interrompe seu estado para que, enfim, possa ter alguém com quem conversar (e dançar, e jantar, e transar). É um ato puramente egoísta que o move. Muitos pensarão: “mas quem, na mesma situação, não faria o mesmo?”. Bom, qualquer um não propenso a condenar outra pessoa à morte isolada de tudo e todos que conhece.

Sem se ater a que problemas são esses que a nave está enfrentando e como contorná-los, logo um terceiro – ou quarto – elemento entra em cena, sendo agora o capitão vivido por Laurence Fishburne. Este, ao contrário da moça e assim como o primeiro, também desperta por conta própria. E pouco faz em cena além de oferecer opções ao casal. Caberá aos dois, portanto, lidar com o problema que tem em mãos – tanto literalmente, com o lugar onde estão encarcerados, como entre eles, a partir do momento em que ela descobrir a verdade sobre sua condição. O estado de abandono a que Jim fica enquanto sozinho parece mais indicado a comover – uma reação básica, portanto – do que estimular a reflexão, como visto, por exemplo, no que enfrenta em posição semelhante Sam Rockwell em Lunar (2009). Assim como ela, que com menos em cena e assumindo uma figura quase que decorativa, deixa de lado os grandes papeis que a atriz já defendeu para não ir além do clichê.

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O diretor Morten Tyldum chegou a ser indicado ao Oscar por sua performance em O Jogo da Imitação (2014), mas seu grande trabalho segue sendo o thriller Headhunters (2011), deixando claro que se sai melhor na sua Noruega natal do que em Hollywood. Passageiros é um filme que tenta se apoiar por demasiado no carisma de seus protagonistas – Lawrence ganhou US$ 20 milhões, enquanto que Pratt recebeu US$ 12 milhões – e em um visual que não chega a chamar atenção pela originalidade – a única grande cena é a da piscina sem gravidade – ao mesmo tempo em que insere em seu enredo questionamentos morais e éticos de grande profundidade, apenas para tratá-los com desprezo e/ou leviandade. Em resumo, é uma obra vazia, reflexo do que a meca do cinema norte-americano é capaz de fazer de pior, isentando-se da responsabilidade de ir além do próprio espelho para buscar algo que fuja dos clichês e conquiste não pela obviedade, mas, sim, por surpreender com o mínimo.

Nota da crítica

2/5

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Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

passageiros-papo-de-cinema-cartazNOME ORIGINAL: Passengers

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2016

DURAÇÃO: 116 min

GÊNERO: Aventura, Drama, Romance

DIREÇÃO: Morten Tyldum

ROTEIRO: Jon Spaihts

FOTOGRAFIA: Rodrigo Prieto

MONTAGEM: Maryann Brandon

MÚSICA: Thomas Newman

FIGURINO: Jany Temime

ESTÚDIO: Columbia Pictures, LStar Capital, Village Roadshow Pictures

PRODUÇÃO: Michael Maher

ELENCO: Chris Pratt, Jennifer LawrenceMichael SheenLaurence FishburneAndy Garcia, Vince Foster, Kara Flowers, Conor Brophy, Julee Cerda, Aurora Perrineau, Lauren Farmer, Emerald Mayne, Kristin Brock, Tom Ferrari

Sinopse

Durante uma viagem pelo espaço, dois passageiros são despertados 90 anos antes do tempo programado, por causa de um mal funcionamento de suas cabines. Sozinhos, Jim e Aurora começam a estreitar o seu relacionamento. Entretanto, a paz é ameaçada quando descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os mais de cinco mil tripulantes em sono profundo.

Curiosidades

- Oscar 2017: indicado a Melhor Design de Produção;

- Originalmente Will Arnett e Anne Hathaway fariam o par de protagonistas;

- Orçamento: US$ 110 milhões;

- Bilheteria EUA: US$ 50,9 milhões;

- Keanu Reeves também chegou a ser cogitado para o principal papel masculino;

- Reese Witherspoon, Rachel McAdams e Emily Blunt também chegaram a ser cogitadas para o principal papel feminino;

- De acordo com o site The Hollywood Reporter, Chris Pratt recebeu US$ 12 milhões por esse trabalho, enquanto que Jennifer Lawrence ganhou US$ 20 milhões, mais 30% dos lucros;

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