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O Moinho e a Cruz

30/12/2012    

 

Crítica

Era uma questão de tempo até um filme sobre uma pintura de Bruegel. Um filme de Lech Majewski é sempre um retorno à luz, à valoração da composição do plano, da estética. Cineasta robusto, de olhar agudo, no cinema de Majewski sempre sobraram variações possíveis, interpretações outras diante do enunciado e de seus dispositivos. Primeiro porque não há um discurso essencial a ser articulado pelo cineasta. Os filmes são o que são, estão aí para o mundo criar através e a partir deles, na profusão de suas matérias. O Moinho e a Cruz reescreve a virtude da mise em scène, de preencher o quadro (aqui literalmente) com a presença dos corpos e dos espaços por eles habitáveis, de materializar a representação da pintura (influência forte em Majewski) em figuras orbitáveis e humanas capazes de ressignificar a imagem, transcender em si.

Mas o rigor corresponde ao desejo de potência, e por mais que a experiência seja essencialmente estética, Majeswski retrabalha a pintura de Pieter Bruegel, o Velho, inserindo personagens em meio as paisagens amplificadas de panos de fundo pintados à mão para ornar a ação, nunca somente para criar cenários. Isso se percebe pela trama, que cria um diálogo (sem diálogos) para os personagens, estrutura eles muito sensivelmente sob composições/cenários para então fortificá-los pela força da câmera – ninguém pode acusar Majewski de desleixo.

A história se passa em Flandres, hoje Bélgica, durante a ocupação espanhola. Judas, Virgem Maria, um burguês, um fazendeiro, o próprio Bruegel, são alguns dos personagens que precisam lidar com a presença maciça do exército espanhol. O resto a câmera leva, em travellings, por entre os cenários montados.

Mas nada disso é ostentação ou criação pseudo, mesmo que, às vezes, perca-se espontaneidade devido a dureza exigida aos atores em seus movimentos, pois não há (ou há pouca) flexibilização espacial, o que mecaniza a ação, endurece-a. Cinema não é pintura, precisa de espaço para deslizar, caminhar, montar e recriar. Não obstante, tudo que sobra é utilizável, como no Renascimento. Se na obra de Bruegel o que se vê é a projeção de paisagens vastas pontilhados por dezenas de trabalhadores, crianças brincando; orgia das relações, confluência dos corpos, alegoria da humanidade, no filme sobre seu quadro mais famoso, A Procissão para o Calvário, as imagens não são tidas como divinas, absolutas e donas de toda verdade artística. Pelo contrário, se prontificam a retratar seres humanos em meio às paisagens da criação visual, onde o próprio Bruegel é personagem, já que aparece algumas vezes concebendo a obra pintada no fundo. Essa junção do criador e da criatura, bem como a sua inserção em sua própria obra, resolve um dilema primário na obra de Majewski: ao realocar um experimento sensorial (o quadro de Bruegel), primeiro é necessário revitalizar a imagem cinematográfica. 

Na adaptação dos dispositivos, vence a criação, sobretudo. Pois se há tecnologia para digitalizar o fundo, Majewski prefere o trabalho manual, a autenticidade da pincelada, da coloração. Não raro o material é muito rico, potente, sensível. Mesmo quando Charlotte Rampling narra o descontrole de sua personagem, a Virgem Maria, enquanto acompanha a crucificação, o onírico se coloca como verbo, a oração energiza-se da agonia. Há toda uma verbalização da potência imagética (a voz e o rosto da Virgem só simbolizam o torpor das relações de afeto entre a mãe e o crucificado), uma correlação de multidões exasperadas, mistura de ritmos. Há, também, morte; mas morte não romântica, morte visceral. É o contrário do comum, até improdutivo para alguns cinemas, essa mistificação da imagem.

Nota da crítica

4/5

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Pedro Henrique Gomes é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do RS. Edita o blog Tudo é Crítica (www.tudoecritica.com.br) e a Revista Aurora (www.grupodecinema.com).

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: The mill and the cross

PAÍS DE ORIGEM: Polônia / Suécia

ANO: 2011

DURAÇÃO: 92 min

DIREÇÃO: Lech Majewski

ROTEIRO: Michael Francis Gibson, Lech Majewski

EDIÇÃO: Eliot Ems, Norbert Rudzik

FOTOGRAFIA: Adam Sikora, Lech Majewski

MÚSICA: Józef Skrzek, Lech Majewski

DIREÇÃO DE ARTE: Stanislaw Porczyk

FIGURINO: Dorota Roqueplo

PRODUÇÃO: Lech Majewski

ESTÚDIO: Pyramida Film, Supra Film, Bokomotiv Filmproduktion AB, Arkana Studio, Odeon Film Studio, 24 Media

SITE OFICIAL: http://www.themillandthecross.com

ELENCO: Rutger Hauer, Michael York, Charlotte Rampling, Joanna Litwin, Dorota Lis, Bartosz Capowicz, Mateusz Machnik, Marian Makula, Sylwia Sczerba

Sinopse

Recriação arrebatadora da pintura épica de Pieter Brugel A Procissão para o Calvário, de 1654. No filme, Rutger Hauer representa Bruegel, Michael York vive um colecionador de arte amigo do pintor e Charlotte Rampling é a inspiração para sua Virgem Maria. Assim o diretor conta a história da pintura por meio de uma análise minuciosa de rituais seculares da vida cotidiana flamenga no século 16, em toda a sua ocre imundície, com cenas que revelam as escolhas artísticas de Bruegel e o contexto político do momento. A pintura, literalmente, ganha vida neste filme em que as cenas invadem o espectador como um sonho adentra um corpo adormecido.

Curiosidades

- Vencedor do I Festival Internacional Lume de Cinema (Brasil);

- Premiado como Melhor Figurino e Melhor Desenho de Produção no Polish Film Awards;

- Premiado com o Leão de Ouro de Melhor Figurino, Desenho de Produção e Som, além do Prêmio Especial do Júri, no Polish Film Festival;

- Menção Especial na premiação da Associação dos Críticos de Cinema de São Francisco (EUA);

- Filmado na Aústria, Polônia, Nova Zelândia e República Tcheca;

- A première mundial foi no Festival de Sundance (EUA);

- Selecionado para os festivais de Roterdã, Istambul, Moscou, Milão, Nova York, Rio de Janeiro, Tóquio, Toronto, Oslo e Hong Kong.

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    Público Total: 2,4 milhões de espectadores

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    Bilheteria Total: US$ 136,9 milhões

  • "A Bela e a Fera" (Disney)

    6ªSemana: US$ 9,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 471 milhões

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