Crítica


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Sinopse

O Grinch é um monstro verde e peludo que não suporta o Natal. Todo ano, precisa aturar que os habitantes da cidade vizinha de Quemlândia comemorem a data. Decidido a acabar com a festa, resolve invadir os lares dos vizinhos e roubar tudo o que está relacionado ao Natal.

Crítica

Baseado no livro Como o Grinch Roubou o Natal, de Dr. Seuss, a animação O Grinch chama atenção, inicialmente, pela beleza do seu visual. A história se passa na fictícia Quemlândia, onde todos os habitantes estão exultantes por conta da proximidade do Natal. Mas, o vizinho Grinch (voz de Lázaro Ramos na dublagem brasileira), além de achar aquilo um saco, pretende acabar com a felicidade alheia de uma vez por todas. Sobressai a forma como os diretores Yarrow Cheney e Scott Mosier apresentam esse cenário, muitas vezes colocando o espectador diretamente no centro da ação e, noutras tantas, fazendo a “câmera” observar em planos longos a constituição da cidade e de demais locais importantes. A residência do protagonista, por exemplo, é uma gruta sem tantos atrativos, a não ser a máquina de café operada diariamente pelo fiel escudeiro canino Max. A pegada é doce. O invejoso verde é um vilão clássico, mas com sentimentos.

Paralelamente à apresentação das peculiaridades de Grinch, com flashbacks dando conta de um passado marcado pela orfandade particularmente solitária nas ocasiões festivas, há a trajetória da simpática Cindy-Lou, criança que arquiteta um plano para encontrar pessoalmente o Papai Noel a fim de pedir-lhe algo especial. Dois percursos distintos que se cruzarão adiante, com benefícios, principalmente, para o rabugento cuja decisão de roubar o Natal das pessoas é gerada por um considerável egoísmo alimentado pelo abandono. A menina, ao contrário, é motivada pela noção de fraternidade, pois quer proporcionar à atarefada mãe um pouco de conforto. O Grinch, no entanto, não é construído como uma figura asquerosa ou algo que o valha, pois os realizadores investem numa aproximação afetuosa, instigando a sensação de que a maldade externada é apenas uma couraça desenvolvida com o passar do tempo para a proteção de lembranças dolorosas.

O Grinch cativa, de cara, pela dinâmica estabelecida entre o protagonista e seu amigo. Esse elo, todavia, não significa a aprovação irrestrita do animal às frequentes ruindades, embora ele sempre embarque com o companheiro nas missões. Fica claro, então, que o bichinho, mesmo absolutamente leal, torce para que o coração do Grinch se expanda e encontre um caminho amoroso. Isso é encenado com criatividade, a partir de uma comunicação não verbal que recorre a expedientes do cinema mudo. Aliás, em termos de apropriações e homenagens, há a cena em que a sombra do protagonista, projetada na parede enquanto há a subida de escadas, alude a um dos momentos mais emblemáticos de Nosferatu (1922), clássico do expressionismo alemão dirigido por F. W. Murnau. A soma de detalhes como esse, não imprescindíveis ao tronco do enredo, mas essenciais para a singularidade do conjunto, é o que determina a personalidade da animação.

Carregando abertamente uma mensagem, O Grinch é caracterizado por uma vilania cartunesca. O protagonista oferece perigo genuíno, mas sua malvadeza invariavelmente é relativizada com graça e afeto. Até não conhecedores da história original podem, perfeitamente, antever os desdobramentos das ações, em virtude de uma concepção que, ao invés de trabalhar com a supressão de informações, opera em sentido contrário, ou seja, dá indícios claros dos rumos que a trama deve tomar. Há boa fluidez narrativa no encargo de tornar a sessão uma experiência prazerosa, repleta de personagens carismáticos, curiosos e/ou funcionais dentro de uma estrutura bem articulada cinematograficamente. Figuras secundárias, como a rena obesa e os colegas de Cindy-Lou, são apêndices bem dispostos neste conto natalino em que a maldade aparentemente incorrigível cede lugar à comunhão responsável por diminuir distâncias e aquecer gélidos corações.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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Grade crítica

CríticoNota
Marcelo Müller
7
Robledo Milani
6
MÉDIA
6.5

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