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Norma Rae

15/12/2016    

 

Crítica

Norma Rae é um amálgama da mulher da década de 1970. Trabalhadora, apaixonada, filha, mãe, esposa, incompreendida, correndo atrás do que acha certo. A personagem de Sally Field é isso e mais um pouco. Apesar dessas características, o longa-metragem dirigido por Martin Ritt não precisa ser necessariamente apontado como uma obra feminista, embora o rótulo não lhe caia mal. É, sim, uma história sobre luta, de buscar os direitos que lhe são devidos, seja você um homem ou uma mulher.

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Na trama, assinada por Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., Norma (Field) é uma mãe solteira, que mora com seus pais, e trabalha na grande e única firma têxtil daquela cidade sulista. A economia do local depende totalmente da mão de obra gerada pela empresa que, sabendo disso, explora seus empregados com salários baixos, longas horas e condições de trabalho risíveis. Eis que surge, vindo de Nova York, o idealista Reuben (Ron Leibman), representando o sindicato dos trabalhadores têxteis, inexistente até então naquele lugar. Tentando buscar apoio da categoria, passando panfletos e criando reuniões para esclarecer o que o sindicato faz, Reuben chama a atenção de Norma, que resolve ajuda-lo na tarefa. Isso, no entanto, causará a fúria de seus chefes e uma onda de inimizades dentro da fábrica.

É importante observar Norma Rae com certa perspectiva, visto que os sindicatos atualmente não têm a mesma força de revolução como tinham em décadas passadas. Portanto, se em alguns momentos o filme pode aparentar certa ingenuidade, isso se deve muito à época em que foi realizado. Interessante lembrar que Martin Ritt foi um cineasta bastante engajado e, portanto, um filme de temática sindicalista era totalmente condizente com sua filmografia.

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Ainda que a história prenda a atenção e que a luta de Norma pelos seus novos ideais seja contagiante, o que de melhor Norma Rae oferece são as atuações da dupla principal. Sally Field venceu o Oscar por sua performance no longa-metragem, criando uma personagem que ousou ir contra todos pelo o que acreditava. Para os olhos de hoje, é difícil compreender os empecilhos que faziam com que os trabalhadores não quisessem a sindicalização. Ao conferir o filme, nota-se um medo de mudar o status quo partindo dos próprios empregados e Norma, com grande ímpeto, mesmo mal falada na cidade pelos seus namoros, tenta colocar na cabeça de seus companheiros a importância daquela novidade. A dobradinha de Sally Field com Ron Leibman é cativante e o ator poderia ter sido lembrado em premiações, assim como sua parceira de elenco.

Beau Bridges recebeu o ingrato papel de novo marido de Norma e, ainda que tenha uma boa performance, acaba sendo prejudicado pelo roteiro, que claramente não dá muita importância para aquele relacionamento. Aliás, o filme sempre perde ritmo quando se concentra no casamento de Norma, o ponto baixo da trama. Felizmente, não demora muito para que a protagonista retorne à sua luta e encabece algumas cenas memoráveis, como o já clássico levante contra seus patrões, com a placa UNION (sindicato, em inglês) sendo mostrada para seus companheiros, em plena fábrica.

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Para plateias mais novas, que conferiram produções como Erin Brockovich (2000) e Terra Fria (2005), saibam que as personagens de Julia Roberts e Charlize Theron são praticamente filhotes de Norma Rae. Aliás, esta aí uma boa dica para uma trinca de filme engajados, com personagens femininas fortes e ótimas atuações.

Nota da crítica

4/5

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Rodrigo de Oliveira é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.

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Ficha Técnica

norma-rae-papo-de-cinema-cartazNOME ORIGINAL: Norma Rae

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 1979

DURAÇÃO: 114 min

GÊNERO: Drama, Biografia

DIREÇÃO: Martin Ritt

ROTEIRO: Irving Revetch, Harriet Frank Jr.

FOTOGRAFIA: John A. Alonzo

MONTAGEM: Sidney Levin

MÚSICA: David Shire

FIGURINO: Michael J. Harte, Agnes Lyon

ESTÚDIO: Twentieth Century Fox Film Corporation

PRODUÇÃO: Tamara Asseyev

ELENCO: Sally Field, Beau Bridges, Ron Leibman, Pat Hingle, Barbara Baxley, Gail Strickland, Morgan Paull, Robert Broyles, John Calvin, Booth Colman, Lee de Broux, James Luisi, Vernon Weddle, Gilbert Green

Sinopse

Em 1978, em Hinleyville, uma pequena cidade do Alabama no sul dos Estados Unidos, a maioria da população está empregada em uma indústria têxtil, cujas condições de trabalho são péssimas. Lá também trabalha Norma Rae, uma mãe solteira de dois filhos e que vive com os pais que também são operários da fábrica. De repente, chega de Nova Iorque o sindicalista Reuben Warshowsky, que procura um lugar na casa de uma família para morar. Segundo ele, aquela instalação é a única no país que não possui um sindicato e ele quer que o trabalhadores se organizem para formar um no local, mas os mesmos resistem pois temem a reação dos patrões. Ele também enfrenta preconceito por ser judeu e na cidade haver predominância da religião Batista. Norma Rae e Reuben acabam amigos e ele passa a influenciá-la para que se engaje na luta sindical.

Curiosidades

- Oscar 1980: premiado como Melhor Atriz (Sally Field) e Canção Original (It Goes Like It Goes). Concorreu ainda nas categorias: Melhor Filme e Roteiro Adaptado;

- Globo de Ouro 1980: premiado como Melhor Atriz em Drama (Sally Field) e indicado nas categorias de Melhor Filme em Drama e Roteiro;

- Festival de Cannes 1979: premiado como Melhor Atriz (Sally Field) e com o Grande Prêmio do Júri Técnico;

- National Board of Review 1979: premiado como Melhor Atriz (Sally Field);

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