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Na Carne e Na Alma

20/03/2017    

 

Crítica

Os ritos de passagem da adolescência para a vida adulta são uma fonte inesgotável para as artes. Isto porque causa marcas indeléveis que acabam influenciando o resto de nossas vidas. Um dos mais utilizados no cinema é a primeira desilusão amorosa. Na Carne e Na Alma, último filme dirigido por Alberto Salvá (1938-2011), um catalão radicado no Brasil, é sobre isso. E mais: é sobre o lado feio do desamor. O comum, o não-cinematográfico é o que importa no filme. Seu protagonista é Rodrigo, um mulherengo que foge do estereótipo de galã. Dependendo da preferência do público, pode até ser tachado de feio. Mas sua lábia e disponibilidade o permite levar para cama, todos os dias, uma garota diferente. Na narração em off, entrega sua técnica do sedutor. Segundo ele, é a teoria do girassol. Você incide luz sob uma mulher e ela se volta inteira para você. Não funciona na vida real, mas no universo paralelo criado por Salvá, ela é certeira.

Rodrigo vê seu cotidiano de sexo casual desabar ao conhecer Mariana, sua colega na faculdade cara que frequenta mais para sair do tédio do que para conseguir um diploma. O que era mais uma transa torna-se uma paixão avassaladora. Pelo menos no sentido que o roteirista entende do tema. Rodrigo chama de amor algo que pode ser melhor definido como compulsão sexual, já que suas declarações para Mariana sempre envolvem partes do corpo. Ele quer o baço, o fígado, o ânus, a boca, enfim, quer sua amada inteira. E acha que isso é amor, ao ponto de trocar confidências com um amigo com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança. As brigas do casal sempre são resolvidas na cama. Óbvio que o sexo é parte importante de uma relação, mas entre Rodrigo e Mariana não há mais nada além dele, por mais que Na Carne e Na Alma tente convencer do contrário.

Além do machismo contido no roteiro, o filme tem problemas técnicos nítidos até pelo mais novato dos espectadores. Realizado em digital, não há nenhuma preocupação em transformar Niterói, cenário da história, em cartão-postal, mas também não há jogo de câmera que sustente a tal complexidade que o protagonista tenta passar. As atuações são medíocres e a caracterização também não ajuda a diminuir o problema. Mariana aparenta ter entre 25 e 30 anos, mas o figurino é de adolescente no Ensino Médio. Em uma das cenas, ela diz que foi ao psicanalista. Mas e a menina fútil, onde se meteu? A presença de livros como Os Irmãos Karamazov e Noites Tropicais em cena dão a entender que Rodrigo é um garoto culto, mas basta o primeiro diálogo para descobrirmos que algo está falho na construção do personagem.

Na Carne e Na Alma não tem pudores em mostrar o sexo, o que é um trunfo em meio a algumas produções puritanas do nosso cinema. Mas de nada adianta exibir peitos e pênis e esquecer do que existe além do corpo. Citar autores e ouvir chorinho não bastam para que se acredite que Rodrigo é um garoto inteligente. A produção chega ao fim e só conseguimos defini-lo como alguém que não superou a fase anal ou mais um idiota que acredita que amor de verdade é penetrar todos os buracos de sua parceira. Se fosse melhor desenvolvido, talvez tivéssemos uma releitura interessante das melhores produções da Boca do Lixo paulistana, como o clássico A Mulher que Inventou o Amor (1979), de Jean Garret. Mas Na Carne e Na Alma não arrepia e o que podia ser um tesão de filme, torna-se uma decepção inesquecível.

Nota da crítica

1/5

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Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Na Carne e Na Alma

PAÍS DE ORIGEM: Brasil

GÊNERO: Drama, Romance

DURAÇÃO: 81 min

ANO: 2012

DIREÇÃO: Alberto Salvá

ROTEIRO: Alberto Salvá

EDIÇÃO: Saulo Moretzsohn

FOTOGRAFIA: Edson Batista

MÚSICA: Nico Rezende

DIREÇÃO DE ARTE: Joana Seibel

PRODUÇÃO: Saulo Moretzsohn

ELENCO: Karan Machado, Raquel Maia, Luciano Moreira, Henrique Pires, Priscilla Rozenbaum, Regina Sampaio, Lolô Souza Pinto

Sinopse

Rodrigo é um jovem niteroiense que pode ser descrito como um mulherengo, indo de mulher em mulher sem criar nenhum vínculo amoroso. Até que um dia, na Faculdade onde estuda, conhece Mariana, uma garota de boa família da Zona Sul do Rio de Janeiro. O jovem, então, passa a conhecer o amor e suas consequências.

Curiosidades

- Último filme do diretor Alberto Salvá, falecido em 2011;

- Baseado em Deusa Cadela, obra de André Abi Ramia.

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