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Manchester à Beira-Mar

03/01/2017    

 

Crítica

Trabalhando em Boston com serviços gerais, que lhe fornecem o sustento, o zelador Lee Chandler (Casey Affleck) se vê obrigado a voltar à sua cidade natal por conta de uma fatalidade. Seu irmão sucumbiu diante de uma severa doença cardíaca e, então, cabe a ele, como parente mais próximo, ocupar-se das providências que o óbito impõe. O que primeiro se sobressai em Manchester à Beira-Mar é justamente o delineamento minucioso da personalidade enigmática do protagonista. Ensimesmado, como se acuado por dores inexpressáveis, esse homem é capaz de explodir de uma hora para outra, deixando evidente uma revolta da qual saberemos paulatinamente as origens, numa cadência avessa à pressa, fruto do exímio roteiro a cargo do também diretor Kenneth Lonergan. É, em princípio, perturbadora a aparente impavidez do personagem de Affleck diante do morto, algo sensivelmente quebrado no abraço doloroso ao corpo inerte daquele que durante um bom tempo foi sinônimo de família.

MANCHESTER BY THE SEA, from left, Casey Affleck, Lucas Hedges, 2016. ph: Claire Folger. © Roadside

A sutileza é o signo formal predominante neste filme. Lonergan não se dispõe a qualquer coisa para criar ligação entre os espectadores e as pessoas em cena. Essa relação vai sendo construída aos poucos, e intensificada a partir do momento em que o cineasta lança mão de excertos do passado, que cortam o percurso regular como uma navalha expondo partes significativas. Lee segue pela cidade recebendo condolências, cumprindo as expectativas que recaem sobre seu papel de irmão enlutado, algo que tira de letra. Ele só realmente balança diante da necessidade de tornar-se tutor do sobrinho, Patrick (a grata revelação Lucas Hedges), adolescente que tampouco demonstra desespero diante da morte do pai, ainda que fique clara a influência deste evento ao seu crescimento, como constatamos no decorrer da trama. Manchester à Beira-Mar fala de gente que não consegue expressar seus sentimentos, que resguarda por total incapacidade as emoções, nem sempre logrando vantagem disso.

É no semblante de Casey Affleck, cuja interpretação se candidata desde já aos mais importantes prêmios da temporada, com bastante justiça, que fica mais evidentemente marcado esse silêncio ensurdecedor, o duro represamento do torvelinho de sensações que sobrevém ao retorno forçado. Kenneth Lonergan faz um movimento de mestre ao ressignificar a condição presente do protagonista com uma série de flashbacks habilmente encadeados, que culminam na exposição de uma tragédia brutal. A partir dali, todos os movimentos de Lee ganham outros contornos, já que sabemos exatamente o motivo de sua angústia, especialmente quando na iminência de assumir de novo uma posição paterna. São particularmente emocionantes os encontros dele com a ex-esposa, vivida competentemente por Michelle Williams, bem como algumas interações mais próximas com o sobrinho, garoto que demonstra ser muito semelhante a ele em determinadas instâncias.

manchester-a-beira-mar-papo-de-cinema-02

Em Manchester à Beira-Mar, a morte é a argamassa que une os personagens principais, forçando-os a uma convivência inesperada e inevitável. Kenneth Lonergan conduz o enredo calmamente, mirando o horizonte, sem forçar o passo, sabendo que o destino é uma utopia. Isso quer dizer que ele não busca espremer a história, bem como os partícipes dela, até extrair um sumo peremptório. Dessa maneira, deixa bem-vindas lacunas, oxigenando a narrativa ao valorizar precisamente o componente humano que reside dos vãos, sem o qual ela seria estéril. A proximidade entre Lee e Patrick se manifesta cada vez mais, permitindo, ora que eles se identifiquem, ora que torçam o nariz, mesmo inconscientemente, para esse reflexo que se estabelece na difícil situação. Sem oferecer respostas fáceis para os questionamentos complexos propostos, Lonergan faz um filme bonito, com destaque à organicidade do transcorrer análogo ao comportamento do mar, ou seja, alternando agitações e calmarias.

Nota da crítica

4/5

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Marcelo Müller é crítico de cinema, membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro - RJ. Além disso, comenta semanalmente as principais estreias cinematográficas na Rádio Nacional do Rio AM 1130.

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Ficha Técnica

manchester-a-beira-mar-papo-de-cinema-cartazNOME ORIGINAL: Manchester by the Sea

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2016

DURAÇÃO: 135 min

GÊNERO: Drama

DIREÇÃO: Kenneth Lonergan

ROTEIRO: Kenneth Lonergan

FOTOGRAFIA: Jody Lee Lipes

MONTAGEM: Jennifer Lame

MÚSICA: Lesley Barber

FIGURINO: Melissa Toth

ESTÚDIO: The Affleck/Middleton Project, B Story, Big Indie Pictures

PRODUÇÃO: Lauren Beck

ELENCO: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Matthew Broderick, Liam McNeill, C.J. Wilson, Heather Burns, Tate Donovan, Josh Hamilton, Gretchen Mol, Tom Kemp, Mary Mallen

Sinopse

Lee Chandler é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai do menino, seu irmão, falecer precocemente. Esta volta ficará ainda mais complicada quando Lee enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes.

Curiosidades

- Oscar 2017: premiado como Melhor Ator (Casey Affleck) e Roteiro Original. Concorreu ainda nas categorias: Melhor Direção, Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams) e Filme;

- Globo de Ouro 2017: premiado como Melhor Ator em Drama (Casey Affleck). Concorreu ainda nas categorias: Melhor Filme em Drama, Direção, Atriz Coadjuvante (Michelle Williams) e Roteiro;

- BAFTA 2017: premiado como Melhor Ator (Casey Affleck) e Roteiro Original. Concorreu ainda nas categorias: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Michelle Williams) e Direção;

- Critics Choice Awards 2016: premiado como Melhor Ator (Casey Affleck), Roteiro Original e Ator Revelação (Lucas Hedges);

- SAG Awards 2017: indicado a Melhor Elenco, Ator (Casey Affleck), Ator Coadjuvante (Lucas Hedges) e Atriz Coadjuvante (Michelle Williams);

- Independent Spirit Awards 2017: premiado como Melhor Ator (Casey Affleck);

- Festival de Lisboa e Estoril 2016: selecionado para a mostra competitiva;

- Festival do Rio 2016: selecionado para a mostra Panorama do Cinema Mundial;

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  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: 1,1 milhão de espectadores

    Público Total: 4,8 milhões de espectadores

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: 705 mil espectadores

    Público Total: 1,9 milhões de espectadores

  • "Baywatch" (Paramount)

    Estreia: 253 mil espectadores

    Público Total: 264 mil espectadores

  • "Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar" (Disney)

    4ªSemana: 251 mil espectadores

    Público Total: 3,3 milhões de espectadores

  • "Um Tio Quase Perfeito" (H2O)

    Estreia: 184 mil espectadores

    Público Total: 184 mil espectadores

  • "Carros 3" (Disney/Pixar)

    Estreia: US$ 53,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 53,5 milhões

  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: US$ 40,7 milhões

    Bilheteria Total: US$ 274,6 milhões

  • "All Eyez on Me" (Lionsgate)

    Estreia: US$ 27 milhões

    Bilheteria Total: US$ 27 milhões

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: US$ 13,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 56,5 milhões

  • "47 Meters Down" (ENTMP)

    Estreia: US$ 11,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 11,5 milhões