O nosso papo é de cinema!


Logan

17/02/2017    

 

Crítica

Já dizia o sábio Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. Por isso, é bom sempre ir com um pouco de desconfiança quando todos insistem em afirmar que algo ou é muito bom, ou muito ruim. No caso de Logan, última aparição de Hugh Jackman como o herói Wolverine, personagem que interpretou em oito filmes anteriores, a tendência tem sido, desde suas primeiras exibições para a imprensa, enaltecer as diversas qualidades da história e do projeto. E essas, de fato, existem. Mas não se pode, ao mesmo tempo, fechar os olhos para algo de desconfortável que pontua todo o desenrolar da trama. Afinal, qualquer análise mais depurada irá apontar dois óbvios poréns. O primeiro, uma vez solta a selvageria, a conclusão é que foi quase impossível domá-la, ultrapassando os limites necessários aqui e ali. E, por fim, nada mais triste do que um adeus em que o protagonista, em última instância, não passa de mero coadjuvante.

Pausa para uma rápida, e urgente, recapitulação. Hugh Jackman assumiu o a barba e as garras do Wolverine graças um acaso do destino, após Dougray Scott se machucar durante as filmagens de Missão: Impossível 2 (2000), o que o obrigou a ficar de fora de X-Men (2000), filmado logo em seguida. Ainda que distante da figura das histórias em quadrinhos – um baixinho invocado e sem meias palavras – a performance do ator convenceu a ponto de ser o grande destaque entre os fãs. Assim que a primeira trilogia chegou ao fim em X-Men: O Confronto Final (2006), Jackman foi o primeiro a dar o passo seguinte, assumindo o solo em X-Men Origens: Wolverine (2009). A coisa não funcionou muito bem, mas sua popularidade seguiu intacta, e após uma troca de diretores – saiu o sul-africano Gavin Hood e entrou o nova-iorquino James Mangold – foi a vez de Wolverine Imortal (2013), um filme mais denso e sem tantas concessões, mas ainda aquém das expectativas. Seria o fim das aventuras individuais do personagem? Talvez ainda não, pois com o sucesso de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) – a mais bem-sucedida de todas as suas incursões na tela grande – chegou-se a conclusão que havia espaço para mais um esforço. E se seria essa sua derradeira aparição, por que não fazer de Logan aquele filme pelo qual todos aguardavam há quase duas décadas?

Pois é quase isso que Mangold, novamente no comando e desta vez mais familiarizado com esse universo, entrega. James Howlett, também conhecido como Logan, também conhecido como Wolverine, não é mais o homem que nos acostumamos a conhecer. Desta vez o encontramos em 2029, quando os mutantes já foram praticamente dizimados, e há anos não se tem registro do nascimento de um novo. Logan está velho, cansado, e seus poderes – força bruta e capacidade regenerativa – estão falhando, para não dizer que os está perdendo. Com ele restam apenas o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), um idoso que precisa de medicação constante para manter o próprio controle, e Caliban (o comediante, roteirista e diretor inglês Stephen Merchant), um ser albino vampiresco que vive nas sombras, se escondendo de tudo e de todos – e, principalmente, do sol. Para cuidar dos dois, ele vive como motorista de limusine. Mas sua vida sofre outro baque quando uma enfermeira mexicana vai até ele não só o acusando de ter uma filha que desconhece, mas obrigando-o a tomar conta da menina (Dafne Keen).

É neste ponto que Logan corre o risco de sair dos trilhos. Afinal, como logo descobrimos, a criança não é exatamente sua descendente, mas, sim, compartilha do mesmo código genético que ele – ou seja, é tão poderosa quanto ele um dia já foi no auge de sua forma. E a partir de então, será missão dele cuidar da segurança dela, já que representa o futuro de sua espécie. A trama, como se percebe, é bastante similar a de Filhos de Esperança (2006). Só que ao invés de investir no contexto, o diretor prefere apostar nas características dos tipos que tem sob comando. Assim, investe-se até onde se imagina ser possível na decadência do protagonista, fazendo dele um verdadeiro saco de pancadas de seus perseguidores – os investidores e cientistas que criavam crianças em laboratório, todas elas alteradas geneticamente, como numa formação sob medida de mutantes. E à medida em que o sadismo do espectador – e dos realizadores – é alimentado, também se torna justificável qualquer forma de revanche: ainda que essa venha através de infantes dispostos a todo e qualquer tipo de violência, quase que numa versão ainda mais cruel e graficamente explícita de Jogos Vorazes (2012).

Tal composição, no entanto, não seria mais do que um tropeço diante os membros mais exigentes da audiência se fosse ela isolada. O que, infelizmente, não é o caso. É salutar encontrar um cineasta disposto a entregar um Wolverine tal qual o mesmo foi desenhado em sua gênese – Mangold é também um dos roteiristas – mas a impressão que se tem é que, após tanta espera e preparo, foi-se com tal ânsia ao argumento original que se desprezou uma eventual – e responsável – adequação. Tudo bem que Logan é um filme para adultos. Mas seria isso desculpa para exageros e descuidos? Por outro lado, Hugh Jackman nunca esteve tão à vontade na pele do personagem, liberado para assumir sua idade – afinal, o ator também envelheceu – e disposto e aprofundar-se em suas contradições e fraquezas, abandonando de vez o porte heroico e inquebrantável. Ele não é mais invencível, insuperável, arrebatador. Possui problemas, está fraco e nada tem a perder. E uma combinação dessas pode resultar em momentos verdadeiramente mágicos.

Como de fato seriam, se não houvesse tanta preocupação com a história da garota e menos interesse em como Wolverine deixou de ser quem era ao ponto de reduzir-se apenas a Logan. Sua preocupação em salvá-la e protegê-la em sua jornada é tamanha que chega a fazer da missão dela, a sua própria. Em um determinado ponto, após ela abandoná-lo, mais nada tem ele a fazer a não ser reencontrá-la para, mais uma vez, seguir como guarda-costas de luxo. É o ocaso que tanto temia, quando tudo que lhe resta é o animal do seu interior, e não o homem que um dia foi, e que poderia voltar a ser. Sem um vilão à altura – o mercenário vivido por Boyd Holbrook é por demais genérico – e com Patrick Stewart fazendo não mais do que uma participação especial, Logan recai quase que exclusivamente nos ombros de um Hugh Jackman decidido a parar. O gesto é simbólico, mas também significativo. Sua despedida pode ser aquele momento em que finalmente nos deparamos com o Wolverine pelo qual sempre ansiamos – pena que não diante dos acontecimentos que fizeram dele o herói pelo qual tanto torcemos.

Nota da crítica

3.5/5

avatar

Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Mande um mail para Robledo

Veja outros textos assinados por Robledo Milani

Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Logan

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2017

DURAÇÃO: 135 min

GÊNERO: Ação, Drama, Ficção Científica

DIREÇÃO: James Mangold

ROTEIRO: James Mangold, Michael Green, Scott Frank, David James Kelly, Roy Thomas, Len Wein, John Romita Sr., Craig Kyle, Christopher Yost

FOTOGRAFIA: John Mathieson

MONTAGEM: Michael McCusker, Dirk Westervelt

MÚSICA: Marco Beltrami

FIGURINO: Daniel Orlandi

ESTÚDIO: Fox, Donners' Company, Kinberg Genre, Marvel Entertainment

PRODUÇÃO: Simon Kinberg, Hutch Parker, Lauren Shuler Donner

ELENCO: Hugh Jackman, Patrick StewartBoyd Holbrook, Doris Morgado, Dafne Keen, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Daniel Bernhardt, Saber Bankson, Eriq La Salle, Mary Peyton Stewart, Lauren Gros, Elise Neal, Dave Davis, Reynaldo Gallegos

Sinopse

Em 2029, Logan e o Professor Xavier tem apenas um ao outro para lidarem com uma realidade em que seus poderes estão desaparecendo e os X-Men não mais existem. As habilidades de cura de Logan não são mais como eram antes e o alzheimer está forçando Xavier à esquecer de tudo. Quando uma garota com habilidades especiais muito similares às de Wolverine aparece na vida deles, terão que usar suas últimas forças para protegê-la a qualquer custo.

Curiosidades

- Baseado na HQ Velho Logan (2008), de Mark Millar e Steve McNiven;

- Este é o último filme da saga X-Men no qual Hugh Jackman interpreta Logan/Wolverine, e Patrick Stewart, o Professor Xavier;

- Segundo o diretor, a trama se passa aproximadamente 30 anos após os acontecimento de X-Men: Apocalypse (2016);

- Durante o trailer, é possível ouvir a canção Hurt, de Johnny Cash. James Mangold foi o o diretor de Johnny e June (2005), cinebiografia do cantor norte-americano;

- Orçamento: US$ 97 milhões;

  • Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: 1,1 milhão de espectadores

    Público Total: 4,8 milhões de espectadores

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: 705 mil espectadores

    Público Total: 1,9 milhões de espectadores

  • "Baywatch" (Paramount)

    Estreia: 253 mil espectadores

    Público Total: 264 mil espectadores

  • "Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar" (Disney)

    4ªSemana: 251 mil espectadores

    Público Total: 3,3 milhões de espectadores

  • "Um Tio Quase Perfeito" (H2O)

    Estreia: 184 mil espectadores

    Público Total: 184 mil espectadores

  • "Carros 3" (Disney/Pixar)

    Estreia: US$ 53,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 53,5 milhões

  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: US$ 40,7 milhões

    Bilheteria Total: US$ 274,6 milhões

  • "All Eyez on Me" (Lionsgate)

    Estreia: US$ 27 milhões

    Bilheteria Total: US$ 27 milhões

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: US$ 13,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 56,5 milhões

  • "47 Meters Down" (ENTMP)

    Estreia: US$ 11,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 11,5 milhões