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Sinopse

O alemão Jules e o francês Jim se tornam grandes amigos. Adiante, ambos se apaixonam por Catherine, iniciando um dos mais emblemáticos triângulos amorosos do cinema, atravessado por guerras e turbulências afetivas.

Crítica

A Paris do começo do século XX era uma cidade cheia de possibilidades, onde surgia uma geração completamente desalinhada com os ideais de seus antecessores. A revolução industrial de outrora, cujo efeito colateral mais evidente havia sido a coisificação - humanos como peças de uma engrenagem azeitada para a sociedade evoluir enquanto bloco -, encontrava então resistência na mentalidade da juventude compromissada apenas com a própria liberdade. Nesse cenário começa Jules e Jim: Uma Mulher Para Dois, um dos melhores filmes de François Truffaut. A amizade do alemão Jules (Oskar Werner) e do francês Jim (Henri Serre) é o ponto central da primeira parte. Juntos pela capital francesa, eles conquistam mulheres, passeiam por cafés, desfrutam de companhias fugazes e apreciam arte, pouco preocupados com estabilidade.

Estupefatos com o sorriso de uma estátua, os amigos logo se veem diante de uma mulher com expressão similar, por quem igualmente se encantam. Catherine (Jeanne Moreau), assim como eles, gosta de liberdade e não se aferra às configurações sociais que ditam este ou aquele comportamento. O caminho natural de apaixonar-se, namorar, casar, ter filhos, parece avesso aos três. Idas e vindas ao interior idílico, a corrida repentina numa passarela, o mergulho inusitado à noite (sem motivo aparente, talvez como protesto às convenções que ameaçam insurgir para quebrar um fluxo de felicidade tão instável quanto intenso), são passagens que evidenciam individualidade em tempos de massificação. O amor surge, Jules não contém o sentimento crescente que o faz querer Catherine ao seu lado e a pede em casamento. Todos parecem felizes, até que estoura a primeira guerra, evento que separa amigos em fronts opostos.

Jules tem medo de matar Jim no campo de batalha, e vice-versa. François Truffaut então muda o registro. Se antes tínhamos em cada movimento uma pequena ode ao viver sem preocupações pequeno-burguesas, por assim dizer, a guerra, esse evento devastador que transforma tudo e todos, traz consigo uma atmosfera de desilusão crescente. A batalha acaba, Jules volta para sua amada Catherine e para a filha. Jim, por sua vez, mesmo parte do lado vencedor, está infeliz. Ao reencontrar o amigo, experimenta uma sensação de amargor, não apenas por constatar o infortúnio do mesmo, ele que se resigna frente às constantes traições da esposa, mas por sentir que o tempo deles passou. Os personagens de Jules e Jim: Uma Mulher Para Dois caminham cada vez mais desorientados, pois não é de sua natureza conformar-se.

O romantismo de Jules e Jim: Uma Mulher Para Dois é mais existencial que amoroso. As tentativas dos personagens atuarem em consonância com os ditames impostos à coletividade repercutem de maneira distinta. Uns até conseguem conviver com a infelicidade, tratando de reduzir as próprias expectativas em função da manutenção das relações, da proximidade dos que amam. Já outros, espíritos mais indóceis, caminham inexoravelmente à tragédia, diante de um cenário que não lhes é favorável, que sacrifica a complexidade do humano em detrimento de um bem-estar comum, como se fosse possível uniformizar anseios e necessidades. François Truffaut diferencia os dois caráteres do filme por meio da câmera. Em princípio, ela própria é livre para enquadramentos insólitos, para capturar momentos aparentemente banais, nos quais reside a felicidade cotidiana. Aos poucos, porém, seu olhar vai endurecendo, e o desapontamento frente aos sonhos não concretizados surge como inevitável sintoma de um tempo em que a felicidade é quase uma abstração, justo porque dela não se valorizam mais as pequenas ocorrências.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.

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