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Sinopse

Um rapaz morre repentinamente, mas deixa para trás uma mala repleta de dinheiro. Seus três colegas de quarto resolvem guardar segredo e usufruir da grana, decisão que ocasiona uma bola de neve de problemas.

Crítica

Danny Boyle já percorreu um longo e premiado caminho em sua carreira cinematográfica. Ele conquistou o status instantâneo de cult a partir de Trainspotting – Sem Limites (1996) e o reforçou em Extermínio (2002), venceu um Oscar por Quem Quer Ser um Milionário (2008) e ampliou o alcance de sua obra em 127 Horas (2010). Entre estas e outras produções figuram algumas pérolas geralmente pouco reverenciadas, como o sci-fi Sunshine – Alerta Solar (2007) e, antes de tudo, seu debut como diretor de cinema no pequeno grande thriller Cova Rasa (1994).

Apresentado ao mundo no mesmo ano em que Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994) roubava todas as atenções para si e as narrativas dos irmãos Coen ressonavam em originalidade, Cova Rasa acompanha três colegas de quarto que buscam por mais alguém para dividir o flat onde vivem em Edimburgo, Escócia. O trio se diverte ao aterrorizar candidatos em potencial durante entrevistas até decidir apostar em Hugo, um escritor que logo é descoberto morto em sua cama com uma maleta de dinheiro sob ela. Assim, Juliet (Kerry Fox), David (Christopher Eccleston) e Alex (Ewan McGregor em seu primeiro papel como protagonista) decidem manter o dinheiro, sem imaginar as consequências de sua escolha.

A primeira coisa a se notar em Cova Rasa é que Juliet, David e Alex são indivíduos desagradáveis e extremamente maldosos. Autocentrados e sempre prontos para disparar críticas egoístas contra os outros, ainda assim eles conquistam a empatia do espectador – algo curioso, uma vez que, considerando suas ações durante o filme, eles não são muito passíveis de pena ou quaisquer outras considerações. Numa construção fora do comum, o roteiro de John Rodge transita entre o humor negro e a extrema violência num piscar de olhos. Alex sempre tem algum comentário inteligente para deixar a atmosfera mais leve, mas assim que o trio se livra do corpo de Hugo a história não é mais a mesma. Os ânimos mudam, eles se tornam paranoicos ou delirantes e logo os três grandes amigos estão um contra o outro. Eis o charme deste suspense, que em nenhum momento parece fora de tom ou entediante, mas intrigante e peculiar.

A direção de fotografia de Brian Tufano é outro mérito que deve ser destacado. Cada morte em Cova Rasa é apresentada de alguma forma brilhante que coloca a perspectiva subjetiva aos olhos do espectador, seja no pequeno monitor do caixa eletrônico, dentro de um freezer ou na água cheia de sangue de uma banheira. A escada em espiral do flat, ressaltada na arte original do cartaz da produção, serve perfeitamente como protagonista de algumas das grandes sequências do filme. Os planos que enquadram os personagens de cima de suas cabeças e a objetiva gira no ritmo indicado pela escada são geniais, artifícios de quem domina a linguagem cinematográfica, e dizem muito sobre os pensamentos emaranhados que desestabilizam seus protagonistas. Eis o talento de Danny Boyle, que estava aparente desde o início.

ShallowGrave

Cova Rasa é uma história que vai de mal a pior durante seu desenvolvimento – e isso é maravilhoso. As performances de Fox, Eccleston e McGregor são sólidas de forma que os motivos de seus personagens são mantidos ambíguos e incertos até que sejam finalmente revelados. Com uma construção imagética que ainda permanece moderna, o filme dribla possíveis convencionalismos do roteiro com um ritmo que faz o espectador se questionar o tempo todo sobre o que está para acontecer. Uma estreia à altura da excelente filmografia de Boyle.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
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