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Contos Gauchescos

14/08/2012    

 

Crítica

Este ano de 2012 marca o centenário de Contos Gauchescos. A obra do escritor gaúcho, nascido em Pelotas, João Simões Lopes Neto (1865 – 1916) traça a mitologia da parte sul do Rio Grande do Sul. Os relatos do protagonista Blau Nunes integram a região pampiana à cultura dos vizinhos uruguaios e argentinos. Narrados em linguagem ordinária – algo incomum e considerado menor para a época, especialmente antes das experimentações de Guimarães Rosa (1908 – 1967) – os causos assumem importância dupla, tanto pela qualidade literária quanto pela utilidade antropológica.

Assim, a adaptação de Contos para a tela teve a sua espera na expectativa de que o audiovisual levasse Simões ao maior público possível. E imagino que este desejo altruísta foi, a um tempo, o motor a impulsionar o diretor e o culpado pelas escolhas equivocadas na realização.

Motivou, sim, pois o diretor gaúcho Henrique de Freitas Lima (Lua de Outubro, 2001, e Concerto Campestre, 2005) conseguiu um didatismo que possibilita levar a conhecer Simões Lopes Neto a todos os cantos e públicos. Entretanto, o seu Contos Gauchescos falha na indecisão quanto ao formato, e consequentemente no destino do projeto. Realizada por Pedro Zimmermann (Arte, Ordem e Caos, 2008), a primeira parte apresenta uma cronologia acelerada da vida e obra do autor. A segunda parte, por sua vez, trata de ficcionalizar quatro contos: Os cabelos da china, Jogo do osso, Contrabandista e No manantial.

A transição entre os contos é equivocada. É impossível não perceber o interesse do diretor de produzir um material que se encaixe como coringa tanto para a televisão como para o cinema ao trazer à tela os créditos dos atores a cada novo “episódio”. Não há problema em levar o conteúdo de um filme para a televisão, como foi o caso de Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) para com Cidade dos Homens (2002 – 2005). O problema reside em gerar um conteúdo intermediário entre material institucional, como é o caso da parte dirigida por Zimmermann, material televisivo, como é a parte de Freitas Lima, e lançá-los em colagem relapsa tal qual obra cinematográfica. A falta de adequação é evidente, pois aquilo que a tudo procura encaixar-se, a nada pertence.

Além do mais, há desníveis nos estágios da realização. A captação das cenas, o figurino e a direção de arte têm momentos de qualidade. As interpretações, no entanto, destoam em inúmeras passagens, apesar de o elenco contar com atores experientes como Roberto Birindelli (visto também no recente Colegas, 2012) e Leonardo Machado (Valsa para Bruno Stein, 2007, e Em Teu Nome, 2009). A falta de densidade dramática decorre claramente da efemeridade dos personagens, que não constroem qualquer relação com o público. O que pode ser um problema menor para capítulos de uma série televisiva semanal, se faz inaceitável em uma obra cinematográfica.

Antes de tudo, Contos Gauchescos precisa descobrir o seu chão. Assim como o fez com primazia o autor dos seus contos.

Nota da crítica

1/5

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Willian Silveira é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Tem formação em Filosofia e em Letras, estudou cinema na Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acumulou experiências ao trabalhar como produtor, roteirista e assistente de direção de curtas-metragens.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Contos Gauchescos

PAÍS DE ORIGEM: Brasil

ANO: 2011

DIREÇÃO: Henrique de Freitas Lima, Pedro Zimmermann

ROTEIRO: Henrique de Freitas Lima, Pedro Zimmermann

EDIÇÃO: César Custodio

FOTOGRAFIA: Eduardo Amorim

MÚSICA: Sergio Rojas

PRODUÇÃO: Fernando Marques, Gina O'Donnel

ESTÚDIO: Pampeana Filmes

ELENCO: Roberto Birindelli, Ida Celina, Renata de Lélis, Nelson Diniz, Lurdes Eloy, João França, Ingra Liberato, Leonardo Machado, Miguel Ramos, Thiago Real, Evandro Soldatelli, Juliana Thomaz, Rafael Tombini, Sissi Venturin

Sinopse

Contos Gauchescos é baseado no livro homônimo de João Simões Lopes Neto, uma das obras principais da literatura brasileira.

Curiosidades

- Selecionado para a Mostra Especial de Longas-Metragens Cinema Gaúcho do 40º Festival de Cinema de Gramado;

- Exibido anteriormente em forma de capítulos de televisão na TVE.

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