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Contágio

26/10/2011    

 

Crítica

O que primeiro chama atenção é o elenco impressionante! Só entre os protagonistas temos quatro vencedores do Oscar – Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Marion Cottilard e Kate Winslet – e mais quatro indicados – Jude Law, Laurence Fishburne, John Hawkes e Elliot Gould! Depois vem quem está no comando, Steven Soderbergh, ele próprio vencedor do prêmio máximo do cinema mundial por Traffic (2000) e responsável por campeões de bilheteria como a trilogia Onze Homens e um Segredo (2001, 2004 e 2007). Pois é no espírito destes seus filmes mais populares em que se baseia o novo Contágio. Porém o tom adotado aqui é mais sério e tenso. Estamos diante de uma epidemia global, dinâmica e mortal. E o que vemos é o máximo de realismo e didatismo. Pela boa aceitação que o filme teve nos Estados Unidos, onde estreou em primeiro lugar nas bilheterias, pode-se imaginar que estas foram escolhas acertadas.

Contágio começa com a personagem de Gwyneth Paltrow voltando aos Estados Unidos após uma reunião de trabalho em Hong Kong. O primeiro som que ouvimos, antes de qualquer imagem aparecer na tela, é o de uma tosse. Sim, ela está infectada, e o que imaginava ser apenas uma gripe tira sua vida no dia seguinte. Desesperado, o marido – vivido por Matt Damon – logo vê o filho menor do casal ter o mesmo fim. Essa é somente a ponta do iceberg, que irá motivar representantes do governo, cientistas, estudiosos, pesquisadores e até um blogueiro (Jude Law), que coloca na internet todas as suas preocupações sobre essa nova doença e o que realmente estaria sendo feito para evitá-la.

Há muitos pontos de vista interessantes em Contágio, e é fácil nos atermos a um deles e, por isso, acabarmos nos perdendo na condução dos demais. Com tanto em cena ao mesmo tempo, é preciso muita atenção para não se confundir com pormenores que insistem em dominar a maioria dos diálogos – que, para a grande maioria dos espectadores, não farão muito sentido. Mesmo assim é possível sentir o clima geral dos acontecimentos, pois tudo constantemente nos remete a um dos sentidos mais básicos: o medo da morte. E diante de um fim quase inevitável, o olhar de Soderberg é bastante pessimista, principalmente em relação à espécie humana. O que vemos são animais em pleno combate pela sobrevivência, em situações de descontrole em que as primeiras coisas a serem esquecidas são a ética, o respeito ao próximo, a moral e os bons costumes. Verdadeiros animais em um jogo em que a lei da selva é que fala mais alto.

Outro debate curioso é o que se desenvolve sobre o personagem de Law. Misto de jornalista e desocupado, é o ponto dissonante nesta história. Ao mesmo tempo em que todos parecem preocupados com a busca por uma solução, ele está mais interessado em apontar culpados e fazer denúncias vazias e, na maioria das vezes, improváveis. Em certo ponto uma das vítimas cai agonizando em pleno corredor de ônibus, e os demais passageiros, ao invés de ajudá-la, sacam seus celulares para fotografá-la. Se num primeiro instante essa cena espanta, em seguida motiva uma reflexão: o que faríamos na mesma situação? E esta parece ser uma das principais preocupações do diretor, que questiona o verdadeiro papel da mídia em grandes eventos, com seu poder mobilizador e o fato de ser cada vez mais irresponsável com o que divulga.

Muito bem conduzido e com um elenco completamente entregue, Contágio consegue superar a mera curiosidade provocada pelos elementos que reúne e se torna uma soma maior que suas partes. É um thriller envolvente, e ainda que não apresente grandes novidades ou resoluções revolucionárias, ao menos entretém com competência, ao mesmo tempo em que provoca e estimula o questionamento. É para as massas, mas não chega a ser dispensável, pois seu alerta é real e imediato. E se o que vemos na ficção tem os dois pés calcados na realidade, o melhor é estarmos atentos ao que diz para evitarmos um futuro semelhante.

Nota da crítica

3.5/5

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Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Contagion

PAÍS DE ORIGEM: EUA, Emirados Árabes

ANO: 2011

DIREÇÃO: Steven Soderbergh

ROTEIRO: Scott Z. Burns

EDIÇÃO: Stephen Mirrione

FOTOGRAFIA: Steven Soderbergh

MÚSICA: Cliff Martinez

DIREÇÃO DE ARTE: Abdellah Baadil, Simon Dobbin, David Lazan

FIGURINO: Louise Frogley

PRODUÇÃO: Jonathan King, Michael Polaire

ESTÚDIO: Warner Bros. Pictures, Participant Media, Imagenation Abu Dhabi FZ, Double Feature Films, Regency Enterprises

SITE OFICIAL: www.br.warnerbros.com/filme-warner/contagio

ELENCO: Gwyneth Paltrow, Tien You Chuí, Bryan Cranston, Li Fai, Josie Ho, Daria Strokous, Matt Damon, Monique Gabriela Curnen, Griffin Kane, Laurence Fishburne, John Hawkes, Jude Law, Teri McEvoy, Sue Redman, Teri Campbell, Stef Tovar, Mary Jo Faraci, Grace Rex, Marion Cotillard, Armin Rohde, Joseph Anthony Foronda, Phillip James Brannon, Rebecca Spence, David Lively, Andrew White, Kate Winslet, Elliott Gould

Sinopse

Nos Estados Unidos um vírus letal  espalha-se rapidamente pelo ar e mata em questão de dias. Conforme a epidemia vai crescendo, toda a comunidade médica mundial luta contra o relógio em busca de uma cura. O problema é que o pânico cresce na população proporcionalmente à velocidade da transmissão do vírus.

Curiosidades

- Este é o primeiro filme que Gwyneth Paltrow, Matt Damon e Jude Law trabalham juntos desde O Talentoso Ripley (1999) . No entanto, Law não tem nenhuma cena com Damon ou Paltrow neste novo projeto;

- O elenco principal contém um número extraordinário de atores que receberam indicações ou ganharam o Oscar: Marion Cotillard (ganhou prêmio de Melhor Atriz em Piaf, 2007); Matt Damon (Melhor Roteiro em Gênio Indomável, 1997); Gwyneth Paltrow (Melhor Atriz por Shakespeare Apaixonado, 1998); Kate Winslet (Melhor Atriz por O Leitor, 2008 ); Laurence Fishburne (indicado como Melhor Ator em Tina, 1993); Elliott Gould (Indicado como Melhor Ator Coadjuvante por Bob, Carol, Ted e Alice, 1969); John Hawkes (indicado como Melhor Ator Coadjuvante em Inverno da Alma, 2010); e Jude Law (indicado duas vezes, por O Talentoso Ripley, como Ator Coadjuvante, e por Cold Mountain, como Ator Principal).

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  • "Velozes e Furiosos 8" (Universal)

    2ªSemana: 1,7 milhão de espectadores

    Público Total: 5,1 milhões de espectadores

  • "A Cabana" (Paris)

    3ªSemana: 621 mil espectadores

    Público Total: 2,4 milhões de espectadores

  • "O Poderoso Chefinho" (Fox)

    4ªSemana: 372 mil espectadores

    Público Total: 2,4 milhões de espectadores

  • "Os Smurfs e a Vila Perdida" (Sony)

    3ªSemana: 241 mil espectadores

    Público Total: 1,1 milhão de espectadores

  • "A Bela e a Fera" (Disney)

    6ªSemana: 225 mil espectadores

    Público Total: 8 milhões de espectadores

  • "Velozes e Furiosos 8" (Universal)

    2ªSemana: US$ 38,6 milhões

    Bilheteria Total: US$ 163,5 milhões

  • "O Poderoso Chefinho" (Fox)

    4ªSemana: US$ 12,7 milhões

    Bilheteria Total: US$ 136,9 milhões

  • "A Bela e a Fera" (Disney)

    6ªSemana: US$ 9,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 471 milhões

  • "Born in China" (Disney)

    Estreia: US$ 5,1 milhões

    Bilheteria Total: US$ 24,7 milhões

  • "Despedida em Grande Estilo" (Warner)

    3ªSemana: US$ 5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 31,7 milhões