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Código de Honra

06/06/2012    

 

Crítica

Chris Evans é um cara feliz. Seus quatro filmes como super-herói (Quarteto Fantástico, 2005; Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, 2007; Capitão América: O Primeiro Vingador, 2011; e Os Vingadores, 2012) arrecadaram juntos, até o momento, mais de um bilhão de dólares somente nas bilheterias americanas! Um resultado como esse é suficiente para deixar qualquer um com um enorme sorriso no rosto. Mas Evans, pelo jeito, não está satisfeito, e tem aproveitado seu tempo livre entre o Tocha Humana e o Capitão América para se envolver em projetos bem mais discretos, mas não menos interessantes. Como esse Código de Honra (título nacional péssimo e sem muito sentido para o original Puncture, ou seja, Incisão), um filme que quase ninguém viu, infelizmente.

Puncture (só irei me referir assim, pois o nome no Brasil é muito ridículo) merecia ter tido uma maior audiência – ou qualquer audiência, pois por aqui, assim como em muitos países, foi lançado diretamente em DVD – por dois motivos: pelo tema que aborda e pela ótima interpretação de Chris Evans, uma das melhores de toda a sua carreira. Ele aparece como um advogado de segunda linha, completamente entregue ao vício nas drogas, que percebe, quase que por acaso, que possui em seu colo um caso de alcance nacional que poderá mudar a sua vida e a do seu sócio (Mark Kassen, também co-diretor, ao lado do irmão Adam Kassen). Um engenheiro independente inventou uma “seringa segura”, que não pode ser reutilizada e é incapaz de provocar acidentes médicos. Parece algo perfeito, mas por que nenhum hospital se interessa em utilizá-la? É um legítimo caso de David e Golias, em que por trás do sistema de saúde existe um gigantesco monopólio de compra e venda de suplementos e equipamentos hospitalares que não possui o menor interesse em ter sua supremacia ameaçada.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem utilizadas poderiam ser esterilizadas no calor. Essa data marca a morte do presidente da Thompson, uma das gigantes da indústria médica, e com a posse dos seus herdeiros optou-se por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa de plástico. Como essa não pode ser esterilizada, sua utilização é apontada em estudos como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças – inclusive a AIDS – em todo o mundo, devido a sua reutilização irresponsável. Puncture fala sobre isso, mas fala também sobre como a ganância do ser humano o torna cego e, obviamente, sobre como qualquer tipo de vício pode acabar com um homem, independente de sua determinação em superá-lo, ou não.

Assim como nos pequenos e independentes Sociedade Feroz (2005) e London (2006), Chris Evans interpreta em Puncture um tipo que explora seus pontos fortes (o bom físico, o aspecto simpático, o visual atraente) ao mesmo tempo em que se arrisca também em campos mais ousados, como a violência, as drogas e temas sociais. Essa entrega e dedicação, aliadas ao fato de se tratar de uma história baseada em fatos reais, torna este filme relevante. Profissionais mais experientes provavelmente fariam dessa trama um produto melhor acabado e pertinente, mas isso não tira o mérito dessa obra que, mesmo que tenha um alcance restrito, cumpre com eficiência os objetivos a que se propõe.

Nota do Leitor

Nota da crítica

3/5

é crítico de cinema, vice-presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e membro da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Formado em Comunicação Social pela UFRGS, é também sócio-diretor da Phosphoros Novas Ideias, empresa de assessoria de imprensa e produção de conteúdo. Criador do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Puncture

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2011

DIREÇÃO: Adam Kassen, Mark Kassen

ROTEIRO: Chris Lopata

EDIÇÃO: Chip Smith

FOTOGRAFIA: Helge Gerull

MÚSICA: Ryan Ross Smith

DIREÇÃO DE ARTE: Yvonne Boudreaux

FIGURINO: Kari Perkins

PRODUÇÃO: Craig Cohen, Paul Danziger, Rod De Llano, Jordan Foley, Joan Huang, Adam Kassen, Mark Kassen, Michael Risoli, Ela Thier

ESTÚDIO: Cherry Sky Films, Kassen Brothers Production, LikeMinded Pictures

SITE OFICIAL: www.puncture-the-movie.com

ELENCO: Chris Evans, Mark Kassen, Marshall Bell, Brett Cullen, Jesse L. Martin, Vinessa Shaw, Roxanna Hope, Michael Biehn, Kate Burton, Erinn Allison, Tess Parker, Justin Anderson, Jack Lee, Brittney Karbowski, Mark Lanier, Danae Ayala, Troy Hogan, Claire Risoli, Jennifer Blanc, Matt Hill, Phil Fisher, Austin Stowell, Amelia Jeffries, Shelley Calene-Black , David Maldonado, Craig Nigh, Linda Lorelle Gregory, Sammy DeSilva

Sinopse

Vicky é enfermeira de um hospital em Houston cuja vida toma um rumo inesperado quando ela é acidentalmente picada por uma seringa usada. A agulha fora utilizada num paciente HIV soro-positivo e Vicky contrai AIDS. Jeffrey Danfort é o amigo de Vicky que desenha equipamento hospitalar e está desenvolvendo uma seringa com ponta segura que poderia prevenir tais erros. Entretanto, enquanto Jeffrey tenta vender sua nova invenção a fabricantes farmacêuticos, ele descobre o quanto estes são governados pela corrupção. Ele resolve processar estas companhias contratando o serviço de Weiss & Dazinger, uma pequena firma de advocacia cujos sócios estão ansiosos por qualquer negócio. Mas enquanto Paul Danziger depende de seu trabalho para sustentar sua esposa e filhos, Mike Weiss está mais preocupado em sustentar o seu vício pela cocaína, que está saindo de controle. Apesar de Mike ver o caso como uma chance de se provar, sua dependência é um obstáculo constante.

Curiosidades

- Baseado em fatos reais;

- Ficou em cartaz por 35 dias em apenas 5 salas em todos os Estados Unidos, faturando menos de US$ 70 mil.

5 comentários para “Código de Honra”

  1. João Pauloem 20/11/2012 às 12:33

    Prezado,
    Tive a sorte de, aleatoriamente numa daquelas buscas por vários canais, ter lido o nome “Código de Honra”(que, como bem dito por você, não condiz em nada como filme) e acabei assistindo ao filme.
    Gostaria de acrescentar na sua ótima resenha/análise, a cena que mais me chamou a atenção, que foi quando o personagem do Cris Evans, já tendo se encontrado com a senhora que era enfermeira e morreu de AIDS, viu, na TV, aquele advogado famoso que aparece no final e, claramente, tem um lampejo de que aquele caso que ele tinha em mãos poderia, como você bem disse, se transformar em algo grande.
    Agora, pelo próprio caráter do personagem, você não acha que o que o leva aceitar o caso foi mais uma questão de possibilidade de projeção nacional do que simplesmente a vontade de fazer a coisa certa?

  2. Robledo Milaniem 20/11/2012 às 17:50

    Pois então, João Paulo, creio que essa seja uma das grandes dúvidas do filme: o que fez um personagem dono de um ritmo de vida tão autodestrutivo mudar tanto? Acho que pode ser um pouco de cada, autopromoção e também vontade de fazer a coisa certa. Afinal, uma hora temos que colocar a mão na cabeça e parar de fazer tanta burrada, não é mesmo?

  3. Danilo Vicenteem 15/07/2013 às 14:12

    Robledo, sua crítica é incisiva, com ou sem “seringa segura”. A única falha do filme é não explicar como um cara tão viciado como Mike consegue tempo para ficar forte. A todo tempo ele fica sem camisa. Nem a injeção tomada pelo Capitão América explicaria. Mas isso é um detalhe. Fica a mensagem da história que precisava ser contada. Gostei bastante.

  4. Leonardo Nobreem 16/10/2013 às 23:15

    Mito boa sua resenha. E elucidou o porquê não tive acesso a ele “de pronto”. Tema muito delicado e importantíssimo! Quando fazia estágio em fisioterapia em um hospital aqui em BH, MG, quase furei meu dedo. Existem milhões de protocolos, regras para quem se lesiona com agulha. Parabéns pelo texto e por trazer a tona um filme despercebido pelo grande público! Cordialmente, Leonardo Nobre

  5. florimarem 28/11/2013 às 11:28

    Como você é um excelente crítico , gostarias de saber quais os pontos éticos do filme se é que eles existem . Obrigada aguardo sua respostas.

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