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As Palavras

04/12/2012    

 

Crítica

Clichê nº 1: Rory Jansen (Bradley Cooper) é um escritor de ficção.

Clichê nº 2: Rory tem talento, mas dificuldade para emplacar sua literatura.

Clichê nº 3: Rory sofre pressão familiar por escolher um métier que não paga as contas.

Clichê nº 4: Rory é o melhor personagem de si próprio.

Clichê nº 5: Rory publica a sua metaficção e é um sucesso.

Se estes cinco momentos lhe irritaram, então tente imaginar o desdobramento da história. As Palavras não é um início promissor para os diretores estreantes Brian Klugman e Lee Sternthal. Prova de que duas cabeças não pensam melhor do que uma, o roteiro assinado pela dupla conseguiu reunir clichês de gênero – o que não é necessariamente ruim – e enfatizá-los como tais – o que é péssimo.

A maior parte da história nos é contada pela voz em off de Clay Hammond (Dennis Quaid). Hammond faz a leitura de seu livro, cujo protagonista é o alter ego Rory Jansen. A estrutura previsível – história dentro da história – enfraquece ainda mais diante do fato que catapulta Jansen à fama.

Em viagem de lua-de-mel a Paris, a recém-esposa Dora (Zoe Saldana) presenteia o escritor com uma pasta de couro. Nela, há um manuscrito. Para um escritor desesperado, nada se parece mais com um sinal divino do que se deparar com um romance pronto e sem dono. Um bom romance. O impulso o faz transcrever o texto e entregá-lo ao editor. Ao parar de acreditar na causa, Rory deixou de se preocupar com as consequências. E elas vieram.

O livro é um sucesso de vendas. A biografia de Rory é inundada por adjetivos, vício dos críticos de todas as áreas. Os prêmios enchem a estante e a conta bancária, fazendo-o esquecer de que o verdadeiro merecedor daquilo tudo é um desconhecido azarado.

Podemos perceber isso. Muito do cinema está no insinuar. Mas o roteiro de Krugman e Sternthal não está satisfeito em sugerir; ele precisa mostrar e dizer. Por isso, seu didatismo e a falsa superioridade se impõem como falhas graves, expostas com o descuido do amadorismo.

É em um parque que o autor do manuscrito perdido encontra Rory. Nomeado apenas por “O velho” (Jeremy Irons), o sujeito narra o passado a fim de reconstituir a perda do material. E nós, que não temos nenhuma culpa disso, acompanhamos tudo.

Neste momento, o filme soa como uma lição de moral. As atuações pesam e as vozes emulam uma dramaticidade vazia. A trilha pretende emocionar, mas torna-se patética diante do contexto. Quando Hammond nos traz de volta para o presente, encerrando o extenso flashback, queremos crer que algo pode ser salvo. O que vemos, porém, continua no tom anterior, de superioridade e ensinamento. Muito barulho por nada. A mensagem, direta demais para ser uma fábula e simples demais para ser uma parábola, acaba desamparada. Assim como o espectador.

Nota da crítica

2/5

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Willian Silveira é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Tem formação em Filosofia e em Letras, estudou cinema na Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acumulou experiências ao trabalhar como produtor, roteirista e assistente de direção de curtas-metragens.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: The Words

PAÍS DE ORIGEM: EUA

GÊNERO: Drama, Romance

DURAÇÃO: 97 min

ANO: 2012

DIREÇÃO: Brian Klugman, Lee Sternthal

ROTEIRO: Brian Klugman, Lee Sternthal

EDIÇÃO: Leslie Jones

FOTOGRAFIA: Antonio Calvache

MÚSICA: Marcelo Zarvos

FIGURINO: Simonetta Mariano

PRODUÇÃO: Michael Benaroya, Cassian Elwes, Rose Ganguzza, Tatiana Kelly, James Lejsek, Laura Rister, Ben Sachs, François Sylvestre, Jim Young

ESTÚDIO: Also Known As Pictures, Benaroya Pictures, Animus Films

SITE OFICIAL: www.thewordsmovie.com

ELENCO: Bradley Cooper, Olivia Wilde, Dennis Quaid, John Hannah, Jeremy Irons, Zoe Saldana, Vito DeFilippo, Michael McKean, Lucinda Davis, J.K. Simmons, Ben Barnes, James Babson, Kevin Desfosses, Ron Rifkin, Brian Klugman, Liz Stauber

Sinopse

Rory Jansen (Bradley Cooper) é casado com Dora (Zoe Saldana) e trabalha em uma editora de livros. Ele sonha em publicar seu próprio livro, mas a cada nova tentativa se convence mais de que não é capaz de escrever algo realmente bom. Um dia, em uma pequena loja de antiguidades, ele encontra uma pasta com várias folhas amareladas. Rory começa a ler e logo não consegue tirar a história da cabeça. Logo ele resolve transcrevê-la para o computador, palavra por palavra, e a apresenta como se fosse seu livro. O texto é publicado e Rory se torna um sucesso de vendas. Entretanto, tudo muda quando ele conhece um senhor (Jeremy Irons) que lhe conta a verdade por trás do texto encontrado.

Curiosidades

- Orçado em US$ 6 milhões, faturou quase o dobro desse valor no mundo todo;

- Estreia de Brian Klugman e Lee Sternthal como diretores;

- O roteiro foi escrito em 1999;

- Rosamund Pike chegou a fazer teste, mas seu papel acabou com Olivia Wilde;

- Participou dos festivais de Sundance (EUA), Zurique (Suíça) e Valladolid (Espanha).

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