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As Melhores Coisas do Mundo

08/12/2011    

 

Crítica

Talvez nos Estados Unidos seja mais raro encontrar uma boa diretora de cinema – afinal, somente agora, 82 anos depois, o Oscar foi premiar uma cineasta! Mas no Brasil o cenário é diferente. Há ótimas realizadoras por aqui, e um belo exemplo é Laís Bodanzky, que com o novo As Melhores Coisas do Mundo mostra mais uma vez seu impressionante talento. Depois do simpático e carinhoso Chega de Saudade, ela retoma o universo jovem visto em Bicho de Sete Cabeças, que marcou sua estreia em longa-metragem. Só que desta vez a intensidade é distribuída em vários dramas menores – mas não por isso menos interessantes. É um filme mais maduro, mesmo que isso possa soar contraditório, visto o tema em debate. E também mais acessível.

Baseado na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, As Melhores Coisas do Mundo tem como ponto de vista o dia-a-dia do personagem principal, um adolescente que atravessa um momento de crise: seus pais estão se separando, o irmão mais velho está no meio de uma paixão avassaladora e ele próprio está caído de amores por uma garota que nem sabe que ele existe. Neste meio tempo, outros dramas típicos da idade vão cruzando seu caminho, como a descoberta da sexualidade, preconceitos, a verdadeira amizade, decisões profissionais, fidelidade e amor. Tudo embalado por um ritmo bastante dinâmico, com uma trilha sonora envolvente e um texto absurdamente fluente e naturalista.

A escolha das palavras que dão o tom em As Melhores Coisas do Mundo foi responsabilidade do parceiro – na vida e no trabalho – Luis Bolognesi, que colabora com Bodanzky desde o seu primeiro trabalho. Apesar de partirem da inspiração literária, os dois não se acomodaram e foram falar com o grupo que desejavam enfocar. Assim, visitaram diversas escolas da rede particular de São Paulo para melhor entendê-los, descobrir como falam, se comunicam, se relacionam. O melhor é que tudo isso é possível ser visto na tela, como se o espectador fosse mais um da turma. Dessa forma, tudo soa ainda mais verdadeiro. E este mérito é inegável. Se a diretora começou sua carreira na tela grande mostrando o inferno das drogas e como esse problema pode ser ainda maior numa família sem diálogo, seu segundo passo foi noutro sentido, elencando as alegrias e as tristezas da terceira idade. Agora, no entanto, ela parte de um período de formação para discutir as decisões que repercutem durante uma vida inteira. O resultado é ainda mais surpreendente.

Outro ponto positivo forte deste trabalho é o elenco, totalmente entregue à história. Dentre os protagonistas, o nome mais conhecido é o de Fiuk, filho do cantor Fábio Jr. e estrela da Rede Globo. Ele é também responsável por algumas das cenas mais pesadas dramaticamente, e se sai muito bem. Os demais são jovens selecionados através de testes, que felizmente aparecem em cena muito à vontade. Francisco Miguez, que faz o personagem principal, está particularmente convincente. Causam bons resultados também as participações especiais de atores mais tarimbados, como Denise Fraga (excelente em um personagem sério e profundo), Paulo Vilhena e Caio Blat. Mas As Melhores Coisas do Mundo não é bom somente por um quesito ou outro. É o seu todo que conquista, mostrando que cinema nacional pode, sim, entreter e fazer pensar ao mesmo tempo, sem ser didático ou cansativo. Aliás, muito pelo contrário. Temos aqui algo destinado aos mais diversos públicos. E é por eles que merece ser descoberto.

Nota da crítica

4/5

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Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: As Melhores Coisas do Mundo

PAÍS DE ORIGEM: Brasil

ANO: 2010

DIREÇÃO: Laís Bodanzky

ROTEIRO: Luiz Bolognesi

EDIÇÃO: Daniel Rezende

FOTOGRAFIA: Mauro Pinheiro Jr.

MÚSICA: BiD

DIREÇÃO DE ARTE: Cassio Amarante

FIGURINO: Caia Guimarães

PRODUÇÃO: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Débora Ivanov, Gabriel Lacerda, Jasmin Pinho, Minom Pinho

ESTÚDIO: Gullane Filmes

ELENCO: Paulo Vilhena, Caio Blat, Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Fiuk, Denise Fraga, Zécarlos Machado, Gabriel Illanes, Gustavo Machado

Sinopse

Mano é um jovem da classe média na cidade de São Paulo e cujos pais estão se separando. Seus medos, angústias e ansiedades, típicos da adolescência, são compartilhados entre os amigos da escola onde estuda. Ali, esse grupo de adolescentes ainda discute dilemas como amor, sucesso, medo e preconceito. Mas é nesse ambiente que eles têm ao seu lado um jovem professor, que entende aqueles garotos e os guia nas descobertas que ocorrem nessa fase da vida.

Curiosidades

- Estreia de Francisco Miguez e Fiuk no cinema;

- Premiado como Melhor Atriz Coadjuvante (Denise Fraga)  e Revelação do Ano (Francisco Miguez) no 16º Prêmio Guarani do Cinema Brasileiro;

- Indicado como Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Edição, Trilha Sonora, Revelação do Ano (Gabriela Rocha) no 16º Prêmio Guarani do Cinema Brasileiro;

- É o 2º filme em que a diretora Laís Bodansky e o ator Paulo Vilhena trabalham juntos. O anterior foi Chega de Saudade (2008);

- É o 1º filme brasileiro a ter uma música dos Beatles na trilha sonora.

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  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: 1,1 milhão de espectadores

    Público Total: 4,8 milhões de espectadores

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: 705 mil espectadores

    Público Total: 1,9 milhões de espectadores

  • "Baywatch" (Paramount)

    Estreia: 253 mil espectadores

    Público Total: 264 mil espectadores

  • "Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar" (Disney)

    4ªSemana: 251 mil espectadores

    Público Total: 3,3 milhões de espectadores

  • "Um Tio Quase Perfeito" (H2O)

    Estreia: 184 mil espectadores

    Público Total: 184 mil espectadores

  • "Carros 3" (Disney/Pixar)

    Estreia: US$ 53,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 53,5 milhões

  • "Mulher-Maravilha" (Warner)

    3ªSemana: US$ 40,7 milhões

    Bilheteria Total: US$ 274,6 milhões

  • "All Eyez on Me" (Lionsgate)

    Estreia: US$ 27 milhões

    Bilheteria Total: US$ 27 milhões

  • "A Múmia" (Universal)

    2ªSemana: US$ 13,9 milhões

    Bilheteria Total: US$ 56,5 milhões

  • "47 Meters Down" (ENTMP)

    Estreia: US$ 11,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 11,5 milhões