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As Aventuras de Pi

12/12/2012    

 

Crítica

As Aventuras de Pi é simplesmente um dos filmes mais espetaculares e inacreditáveis de 2012. E muito provavelmente isso é tudo que o espectador precise saber antes de ir, de fato, ao cinema conferir este emocionante conto de amizade e sobrevivência. Temos aqui uma lição de vida e respeito a todos os seres vivos que, ao lado dos homens, fazem parte deste planeta que nos acostumamos a chamar de Terra. Irretocável, se compara à poucos outros longas desta temporada. Grandioso, moderno, tecnológico, plasticamente arrebatador, visualmente inspirado, dignamente interpretado e narrado com uma maestria assustadora. É cinema em caixa alta e com todas as letras. Talvez o longa-metragem mais completo do ano, pois funciona sob qualquer ponto de vista que se deseje encará-lo: como entretenimento, pelo conteúdo relevante ou mesmo tendo sua profundidade psicológica como foco. Uma obra que ficará marcada na memória de qualquer um que com ela entrar em contato como um das mais belas já feitas.

Este é o filme que ficará conhecido como “aquele do menino com o tigre no mesmo bote”. Esta sinopse, ao menos para nós, brasileiros, não é tão estranha. Trata-se da mesma do livro Max e os Felinos, escrito em 1981 pelo gaúcho Moacyr Scliar e que serviu de inspiração para o autor espanhol Yann Martel construir seu best seller Life of Pi (A Vida de Pi). A adaptação cinematográfica, conduzida pelo diretor oscarizado Ang Lee, combina os mesmos elementos já revelados em trabalhos anteriores do cineasta, como a delicadeza de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), a força narrativa de O Tigre e o Dragão (2000), a ironia inteligente de Tempestade de Gelo (1997) e a perspicácia audaciosa de Razão e Sensibilidade (1995), apenas para ficarmos nos mais conhecidos. Dessa vez ele consegue combinar tudo isso e ainda ir além, adicionando um viés emocional muito forte, que envolve e comove de forma arrebatadora. É praticamente impossível não se deixar levar pela história que está sendo contada, por mais surpreendente que ela seja.

Pi Patel (Irrfan Khan, de O Espetacular Homem-Aranha, 2012) é um bem sucedido professor indiano que mora no Canadá com sua família. Ele é procurado por um jornalista (Rafe Spall, de Prometheus, 2012) que ouviu falar de uma história absurda vivida pelo seu interlocutor. Caso a ache convincente, ele pretende transformá-la no seu próximo livro. Disposto a contar apenas a verdade, Pi promete narrar os fatos tais quais eles aconteceram. E assim começa As Aventuras de Pi, mostrando o que passa quando uma tempestade abate um navio em pleno Oceano Pacífico. Nele se encontra uma família vinda da Índia que pretende buscar uma melhor condição social num novo país. Eles estão acompanhados de todas as suas posses – os animais do zoológico que possuíam. Com o naufrágio, sobrevivem apenas o filho mais novo – Pi (agora interpretado pelo novato Suraj Sharma, uma verdadeira revelação) e cinco diferentes bichos: uma zebra, uma hiena, um orangotango, um rato e um tigre! Todos tendo apenas um mero bote para permanecerem vivos.

O mais surpreendente de As Aventuras de Pi é que, apesar deste enredo, numa primeira vista, não fazer o menor sentido – é de se imaginar de imediato que os animais irão comer um ao outro e que ninguém sobreviverá para contar história – o que vemos em cena, no entanto, é lógico e compreensível. A forma como cada uma das relações irá se dar é tão natural quando reveladora, mostrando facetas que mesmo os mais perspicazes se pegarão surpresos. Outro fator que merece uma atenção especial é como é elaborada a construção do personagem principal, desde sua infância até o clímax após passar pela tormenta em condições nunca antes imaginadas. Entendemos seu humanismo, suas ligações com o universo ao redor e nos sentimos como parte disso tudo. Aí está o verdadeiro mérito do filme: conseguir com tamanha eficiência nos colocar no lugar do protagonista, como se fossemos nós mesmos a passar por este relato mágico e transformador.

Desde Avatar (2009) ou, talvez, A Invenção de Hugo Cabret (2011), não se via um uso tão perfeito da tecnologia em 3D como em As Aventuras de Pi. A técnica nos coloca, de fato, no centro da ação, transportando-nos para as mesmas situações enfrentadas na tela. Sem falar no ganho fantástico que é oferecido à fotografia do chileno Claudio Miranda (indicado ao Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button, 2008), tão encantadora que chega a faltar adjetivos para descrevê-la. Pi perdeu tudo – amigos, família, sua terra natal – e lhe resta apenas um feroz predador, aquele que pode significar seu fim, mas também seu começo. A questão do ponto de vista ganha novas interpretações, e como estes dois passarão de inimigos para formarem duas partes de um todo quase indivisível aponta para o maior mérito do roteiro de David Magee (indicado ao Oscar por Em Busca da Terra do Nunca, 2005), composto com uma simplicidade merecedora de muitos aplausos.

Na maioria das vezes o cinema faz uso do seu poder de ilusão e magia para transportar o espectador para longe da sua própria realidade, como uma válvula alienadora de escape e prazer momentâneo. As Aventuras de Pi também faz isso, porém com o grande diferencial de, após este passeio, conduzir o mesmo observador de volta ao ponto inicial de encontro, mas neste momento já transformado e evoluído. Trata-se de um filme que propõe uma viagem singular e circular, mostrando o quão estamos todos conectados e como cada esforço individual pode fazer diferença neste nosso universo. Bonito, singelo, emocionante e único. Para fazer e ficar na história, principalmente naquela feita diariamente por cada ser deste mundo incrivelmente vasto composto por todos nós.

Nota do Leitor

Nota da crítica

5/5

é crítico de cinema, vice-presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e membro da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Formado em Comunicação Social pela UFRGS, é também sócio-diretor da Phosphoros Novas Ideias, empresa de assessoria de imprensa e produção de conteúdo. Criador do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Life of Pi

PAÍS DE ORIGEM: EUA

GÊNERO: Aventura, Drama

DURAÇÃO: 127 min

ANO: 2012

DIREÇÃO: Ang Lee

ROTEIRO: David Magee

EDIÇÃO: Tim Squyres

FOTOGRAFIA: Claudio Miranda

MÚSICA: Mychael Danna

DIREÇÃO DE ARTE: Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale, Dan Webster

FIGURINO: Arjun Bhasin

PRODUÇÃO: Kevin Richard Buxbaum, William M. Connor, Dean Georgaris, Ang Lee, David Lee, Michael J. Malone, Gil Netter, Tabrez Noorani, Pravesh Sahni, David Womark

ESTÚDIO: Fox 2000 Pictures, Haishang Films, Rhythm and Hues

SITE OFICIAL: www.AsAventurasdePi.com.br, www.facebook.com/LifeofPi

ELENCO: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, Rafe Spall, Gérard Depardieu, James Saito, Jun Naito, Andrea Di Stefano, Shravanthi Sainath, Elie Alouf

Sinopse

Pi Patel (Suraj Sharma) é o filho do zelador de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Sua família decide se mudar para o Canadá, viajando a bordo de um imenso cargueiro. Quando o navio naufraga, Pi consegue sobreviver em um barco salva-vidas. Perdido em meio ao oceano Pacífico, ele precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker.

Curiosidades

- Vencedor do Oscar de Melhor Diretor, Trilha Sonora, Efeitos Visuais e Fotografia;

- Indicado a outras sete categorias do Oscar: Filme, Roteiro Adaptado, Edição, Direção de Arte, Canção Original, Som e Edição de Som;

- Do mesmo diretor de O Segredo de Brokeback Mountain (2005);

- Orçado em US$ 120 milhões, faturou quase US$ 200 milhões nos cinemas de todo o mundo;

- Filme baseado em livro de Yann Martel;

- Recebeu 5 indicações ao Satellite Awards, inclusive à Melhor Filme;

- M.Night Shyamalan, Alfonso Cuarón e Jean-Pierre Jeunet foram alguns dos diretores que se interessaram em realizar este filme antes de Ang Lee;

- Andrew Garfield e Tobey Maguire foram convidados para participarem do filme, no papel que acabou ficando com Rafe Spall. Maguire chegou, inclusive, a filmar suas cenas, mas foi posteriormente substituído porque o diretor achou que um ator muito famoso num papel tão pequeno seria motivo de distração na história;

- Yann Martel, autor do livro em que o filme se baseia, assumiu posteriormente que sua inspiração para esse romance surgiu ao ler uma resenha crítica sobre o livro Max e os Felinos (1981), do escritor gaúcho Moacyr Scliar;

- As únicas cenas feitas com um tigre de verdade foram as que o felino está no mar e Pi no bote. O ator nunca chegou a ficar no mesmo espaço que o tigre, pois todas as demais cenas dos dois interagindo no bote foram feitas com computação digital;

- Suraj Sharma, que interpreta o protagonista Pi, foi escolhido dentre 3.000 candidatos. Ele não chegou a fazer um teste, pois foi até às audições apenas para acompanhar o irmão;

- Indicado como Melhor Filme Estrangeiro no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Um comentário para “As Aventuras de Pi”

  1. Rodrigoem 20/12/2012 às 21:36

    Pelo jeito vale a pena assistir, grande critica e síntese.
    Parabéns robledo

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  • Drácula: A História Nunca Contada (Universal)

    Estreia: 581.400 espectadores

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  • Annabelle (Warner)

    3ª Semana: 423.500 espectadores

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    2ª Semana: 163.800 espectadores

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  • O Candidato Honesto“ (DTF/Paris)

    4ª Semana: 154.800 espectadores

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  • O Apocalipse” (Imagem)

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  • “John Wick” (Lionsgate)

    Estreia: US$ 14.150.000,00

    Bilheteria Total: US$ 14.150.000,00

  • Corações de Ferro” (Sony)

    2ª Semana: US$ 13.000.000,00

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  • Garota Exemplar” (Fox)

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  • Festa no Céu” (Fox)

    2ª Semana: US$ 9.800.000,00

    Público Total: US$ 29.913.000,00

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