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A Grande Muralha

21/02/2017    

 

Crítica

O futuro do cinema mundial está na China. Títulos como Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016) aprenderam isso às duras penas. Com um orçamento de US$ 160 milhões, arrecadou apenas US$ 47 milhões nos EUA. Mesmo assim, sua sequência já foi confirmada pelo diretor Duncan Jones. E sabe por quê? Por causa da China, onde o filme, sozinho, faturou mais de US$ 220 milhões, elevando o acumulado global para a casa dos US$ 433 milhões! Cada vez é maior a preocupação com o mercado chinês, como exemplos como esse evidenciam. E se ter atores chineses em cena – como Vingadores: Era de Ultron (2015) – ou ter parte de sua trama ambientada por lá – como Transformers: Era da Extinção (2014) – não parecem mais seres medidas suficientes, que tal levar a produção inteira para o outro lado do mundo, falando de temas caros àquela população, com seus astros, cenários e idioma? Pois bem, é assim que chegamos a este A Grande Muralha, que até parece ser produto de uma manifestação artística, mas nada mais é do que uma grande e engenhosa peça publicitária.

E qual o problema disso, alguns podem perguntar. Bom, nenhum. Desde que se seja honesto a respeito, é claro. Com apenas três atores ocidentais em um elenco gigantesco, A Grande Muralha tenta se apoiar no carisma de Matt Damon para se comunicar com o público ao redor do mundo. Uma estratégia, no entanto, que parece não dar muito resultado. Damon é um ator competente, já indicado ao Oscar, e também com alguns sucessos de bilheteria no currículo. Este, no entanto, é o seu primeiro herói clássico, no sentido de apresentar uma jornada linear e sem distrações, que vai da conduta condenável à redenção e à conquista dos seus intentos no final. Mesmo o agente Jason Bourne era um anti-herói, envolvido contra sua vontade em conspirações muito maiores do que as imaginadas à princípio, que precisava sobreviver com o que tinha ao seu alcance. Já o mercenário William, o qual assume com visível desconforto, é uma figura plana, sem curvas, que até pode ter segundas intenções no começo, mas logo irá se dobrar em nome de algo maior. No caso, como é de praxe, não apenas o coração, mas também outros sentimentos mais elevados, como honra e respeito. Previsível e entediante, como se percebe.

Ainda que o nome faça referência à Muralha da China, a trama não é sobre ela – ou melhor, não exatamente sobre sua construção e como chegou a se tornar um dos maiores monumentos jamais elaborados pela mão humana. O que se procura descobrir, ao invés disso, seriam as razões de sua existência. Mas até essa investigação não demora muito: logo no primeiro ato somos colocados diante uma batalha impressionante entre os chineses, com sua guarda orquestrada e dinâmica, e um ataque de... monstros. Sim, estamos diante de um épico fantasioso aos moldes de O Senhor dos Anéis. Estima-se a lenda que os Tao Tei – os seres horrorosos e quase imbatíveis – teriam surgido movidos pela ganância humana, e a cada 60 anos reapareceriam para se alimentarem de tudo que encontrarem pela frente. A Muralha, portanto, existiria para impedi-los de irem além e dizimarem a humanidade. Um propósito que, após tantas lutas e combates, pode estar chegando ao fim.

Zhang Yimou não é um profissional qualquer. Diretor da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 – assim como Danny Boyle, em Londres (2012), ou Fernando Meirelles, no Rio de Janeiro (2016) – ele já foi indicado três vezes ao Oscar e teve seus filmes premiados nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza. Responsável por sucessos como Herói (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), sabe como poucos criar um espetáculo visual. E isso faz com maestria em A Grande Muralha. Porém, o que antes exercia com refinamento e muita criatividade, agora deixa recair quase que por completo nas mãos dos técnicos e engenheiros digitais. É uma explosão de efeitos atrás da outra, a ponto de deixar qualquer um atordoado. Impressiona, é claro. Porém, não permanece. Perde-se o foco e o sentido. Anestesia-se pelo excesso. E, dessa forma, até o final, que merecia uma conclusão apoteótica, encerra em um tom agridoce e forçosamente tão grandioso quanto desnecessário.

A Grande Muralha é uma estreia de peso, e ainda que um tanto tardia, mostra que Hollywood tem muito a aprender com Yimou. Ele, por outro lado, deveria evitar esse exercício de troca e se ater mais às convicções demonstradas em seus trabalhos anteriores. Destes, talvez o passo em falso seja Flores de Oriente (2011) – justamente o único até então estrelado por um astro ocidental, no caso, Christian Bale. Assim como outros cineastas que deixaram suas zonas habituais e se encantaram com as maravilhas dos aparatos hollywoodianos, o consagrado realizador chinês cria um épico sobre o seu povo, mas de acordo com uma visão bem de acordo com as leis do mercado internacional. E quando tudo se reduz aos números, como contradizê-los? No seu lançamento, após o investimento de US$ 150 milhões, o faturamento alcançou o valor pífio de US$ 21 milhões nos EUA e a impressionante quantia de US$ 170 milhões na China. Funcionou, é claro, mas até que ponto e sob quais parâmetros e medidas? Esta é uma conta que faz mais sentido para eles do que para nós do lado de cá desta equação.

Nota da crítica

3/5

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Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: The Great Wall

PAÍS DE ORIGEM: EUA/China

ANO: 2017

DURAÇÃO: 103 min

GÊNERO: Ação, Drama, Fantasia

DIREÇÃO: Zhang Yimou

ROTEIRO: Carlo Bernard, Doug Miro

FOTOGRAFIA: Stuart Dryburgh, Xiaoding Zhao

MONTAGEM: Mary Jo Markey, Craig Wood

MÚSICA: Ramian Djawadi

FIGURINO: Mayes C. Rubeo

ESTÚDIO: Legendary East, Atlas Entertainment, China Film Group

PRODUÇÃO: Jon Jashni, Peter Loehr, Charles Roven, Jillian Share, Thomas Tull

ELENCO: Matt Damon, Willem Dafoe, Pedro Pascal, Tian Jing, Andy Lau, Hanyu Zhang, Lu Han, Kenny Lin, Eddie Peng, Xuan Huang, Ryan Zheng, Karry Wang, Cheney Chen, Numan Acar, Johnny Cicco, Vicky Yu, Bing Lu

Sinopse

No século XV, um grupo de soldados britânicos está combatendo na China e se depara com o início das construções de uma grande muralha. Aos poucos, eles percebem que o objetivo não é apenas proteger a população do inimigo mongol e que o monumento irá esconder, na verdade, um grande segredo.

Curiosidades

- A maioria das cenas foram filmadas na China e algumas na Nova Zelândia;

- Willem Dafoe assumiu o lugar de Bryan Cranston, que desistiu de participar do filme;

- Henry Cavill foi cotado para o papel de Tovar (Pedro Pascal);

- Orçamento: US$ 150 milhões;

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    4ªSemana: US$ 12,7 milhões

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