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A Chegada

07/10/2016    

 

Crítica

Louise, protagonista de A Chegada, o mais recente filme do cineasta Denis Villeneuve, é uma especialista cooptada pelo exército norte-americano para decodificar a linguagem aparentemente ininteligível dos alienígenas que se instalam em diversas partes do mundo sem um motivo evidente. Parte-se, então, de uma necessidade urgente de compreensão. Em meio aos protocolos que denotam a preocupação com os objetos voadores não identificados, essa mulher interpretada por Amy Adams acessa percepções que, associadas à sequência inicial, na qual é violentamente exposto o drama decorrente do câncer responsável por ceifar a vida de sua filha, expõem a intimidade sobressalente mesmo com todos diante de um evento de proporções globais. A atmosfera criada por Villeneuve é alavancada pelo mistério, primeiro, no que diz respeito ao aspecto físico dos visitantes e, segundo, no que tange às suas reais intenções. Ao redor da problemática se arma um circo que oferece exemplos das controvérsias governamentais quando deflagrada um crise, neste caso, frente ao desconhecido.

ARRIVAL

A importância da comunicação é um fator imprescindível em A Chegada, longa-metragem baseado no livro The Story of Your Life, de Ted Chiang. No contato estabelecido, depende essencialmente da sensibilidade de Louise a determinação da natureza da presença insólita, se uma ameaça ou algo que não representa perigo real à humanidade. No plano simbólico, os personagens se relacionam com os ambientes de maneira rigorosa, traço encarregado de ressaltar o estranhamento quase onipresente que, assim, parte da dimensão puramente visual para atingir o ponto nevrálgico da estrutura narrativa. O que ocorre na antecâmara da nave, lugar de oxigênio rarefeito e baixa gravidade, é um exemplo disso, pois a confusão espacial e o suspense logo se tornam naturais, e mais, familiares e indissociáveis da experiência dos envolvidos. O som desempenha um papel significativo nesse sentido, pois contribui para a transformação do clima que sobrevém à reincidência dos pesquisadores no recinto.

Vivido por Jeremy Renner, o cientista Ian se coloca como parceiro de Louise nessa empreitada que pode alterar, inclusive, os rumos da política internacional. Os doze Óvnis espalhados por várias partes do planeta instauram uma crise mundial. Severas divergências entre nações surgem para deflagrar a intolerância, bem como a prioridade de cada uma delas, que é cuidar dos próprios interesses. A aparente falta de um investimento adequado nessa observação pode parecer negligência, assim como são falsamente aleatórios os flashes da relação de Louise com filha, antes desta morrer vitimada pela doença. Contudo, uma engenhosa virada, semeada paulatina e sutilmente, ressignifica o filme, o reconfigurando totalmente. A tragédia pessoal da protagonista ascende ao patamar mais elevado da trama, propondo reflexões relativas a temas tão espinhosos quanto fecundos, como o tempo e o destino. Há, então, uma drástica subversão das expectativas, bem como de ocasionais frustrações.

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Amy Adams apresenta em A Chegada um grande trabalho, expressando com riqueza de nuances o turbilhão de sensações pelas quais Louise passa, especialmente a partir do momento em que suas “reminiscências” começam a influenciar os acontecimentos presentes e vice-versa. Neste ótimo – às vezes excepcional – filme de Denis Villeneuve, o elemento linguagem é instrumental, por suas óbvias e reconhecíveis funções, e portal, através do qual se acessam outras culturas e modos de vida. O homem se realoca, dentro deste universo ficcional bastante particular, conforme novas formas de encarar conceitos como passado e futuro. O mérito de Villeneuve reside, principalmente, na condução precisa de um percurso emocional complexo, intrincado e bastante rico cinematograficamente, encerrado com um gesto de coragem que não afeta só os personagens, mas também o espectador que seguramente terá experiências bem distintas numa eventual segunda sessão.

Nota da crítica

4/5

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Marcelo Müller é crítico de cinema, membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e professor eventual da Academia Internacional de Cinema. Além disso, comenta semanalmente as principais estreias cinematográficas na Rádio Nacional do Rio AM 1130.

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Ficha Técnica

14440968_10154612198142425_5504361846139053173_nNOME ORIGINAL: Arrival

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2016

DURAÇÃO: 116 min

GÊNERO: Drama, Mistério, Ficção Científica

DIREÇÃO: Denis Villeneuve

ROTEIRO: Eric Heisserer, Ted Chiang

FOTOGRAFIA: Bradford Young

MONTAGEM: Joe Walker

MÚSICA: Jóhann Jóhannsson

FIGURINO: Renée April

ESTÚDIO: 21 Laps Entertainment, FilmNation Entertainment, Lava Bear

PRODUÇÃO: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Karen Lunder, Aaron Ryder

ELENCO: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Mark O’Brien, Tzi Ma, Nathaly Thibault, Joe Cobden, Abigail Pniowsky, Max Walker, Pat Kiely, Sangita Patel, Julian Casey, Leisa Reid, Ruth Chiang, Russell Yuen, Julia Scarlett Dan

Sinopse

Quando misteriosas naves espaciais aterrissam em todo o mundo. Uma equipe de elite, liderada pela linguista Louise Banks, é reunida para investigar. Enquanto a humanidade hesita à beira de uma guerra mundial, Banks e sua equipe correm contra o tempo em busca de respostas.

Curiosidades

- Globo de Ouro 2017: indicado a Melhor Atriz em Drama (Amy Adams);

- Critics Choice Awards: premiado como Melhor Roteiro Adaptado e Filme de Ficção Científica/Terror;

- Festival do Rio 2016: selecionado como Filme de Abertura;

- Festival de Veneza 2016: selecionado para a mostra competitiva;

- SAG Awards 2017: indicado a Melhor Atriz (Amy Adams);

- Contou com um orçamento de US$ 50 milhões;

- Filmado na cidade de Montréal, província de Québec, no Canadá;

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