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A Autópsia

02/05/2017    

 

Crítica

Necrotérios são cenários naturalmente intimidadores. O diretor norueguês André Øvredal utiliza muito bem esse potencial para provocar medo, tornando-o pilar do clima de A Autópsia. O corpo da jovem desconhecida, encontrado misteriosamente numa cena criminal, em princípio, sem relação identificável com as demais vítimas, logo começa a ser estudado por Tommy (Brian Cox) e Austin (Emile Hirsch), respectivamente pai e filho. Vemos a esfera científica em ação, procedimentos corriqueiros de reconhecimento das múltiplas lesões internas e externas, e correlações de prováveis pretextos, embora o patriarca se atenha geralmente aos fatos, deixando os desdobramentos aos investigadores. Antes mesmo que o estranhamento seja deflagrado, temos uma eficiente construção atmosférica que dá conta de segurar a nossa atenção, amplificando o macabro sempre que possível. O rádio sintonizando automaticamente e as luzes que oscilam sem aparente razão instauram receio no espectador.

No começo, as etapas da autópsia surgem como peças protocolares de um quebra-cabeça. As evidências fornecidas pelo corpo da desconhecida – chamada genericamente de Jane Doe (Olwen Catherine Kelly) – apontam para caminhos muitas vezes esfumaçados, confusos. Mesmo que vejamos os especialistas cortando a mulher prostrada, retirando seus órgãos vitais repletos de cicatrizes e queimaduras, removendo sua pele para estudo, o semblante que guarda vivacidade sinistra é um forte indício da existência de algo para além da dimensão terrena. André Øvredal não nos poupa dos detalhes, pelo contrário, mostrando as incisões, o sangue escorrendo (indevidamente) da defunta e as vísceras expostas. Entretanto, o sensacionalismo e/ou a apelação passam longe de A Autópsia, pois esse itinerário é entendido, de acordo com a encenação, como parte de uma metodologia natural e corriqueira. Tudo isso, porém, é um preâmbulo do horror estabelecido assim que o sobrenatural se impõe.

Øvredal contrapõe a atuação pragmática de Tommy e Austin, eles que dissecam a “vítima” espontaneamente, afinal desempenham a função todos os dias, com a improbabilidade do extraordinário. O diretor lança mão de convenções do horror, tais como luzes apagadas sem intervenção humana, portas abertas inexplicavelmente, barulhos incomuns ao local, entre outras, a fim de preparar o terreno. O mais amedrontador, porém, é o corpo inerte da desconhecida que, dadas as circunstâncias, parece conspirar contra a vida dos perscrutadores profissionais de cadáveres. Aliás, a sensação predominante de desespero ganha densidade quando os personagens acreditam ter encontrado as devidas respostas. Os sustos são constantes em A Autópsia. A maioria é eficaz, mas alguns deles só atendem à necessidade, nem sempre justificada, de causar novos sobressaltos. A relação das pessoas com as idiossincrasias do ambiente e o mistério advindo da morta seriam suficientes para atemorizar.

André Øvredal aposta na supressão de qualquer dubiedade, permitindo ao pavor dominar a trama literal e gradativamente. As conclusões dos personagens, excetuando as técnicas, especialmente as de natureza religiosa, soam demasiadamente precisas e incontestes, o que causa uma dissonância prejudicial. Contudo, A Autópsia se beneficia sobremaneira da habilidade do diretor no engendramento dos elementos caros ao gênero, exatamente para a obtenção de uma impressão de perigo permanente e progressivo. Ao cadáver inanimado de Jane Doe é conferida uma aura de grande ameaça. Seu olhar cinza e petrificado, fotografado de tal maneira expressiva que denota inequívoca malignidade, é a porta de entrada do inferno simbólico impingido ao pai e ao filho que, então, se deparam com a violência de forças ocultas, distantes da compreensão racional. Apesar de apelar a certos lugares-comuns do horror, é um filme de personalidade, inclusive com significativo potencial para originar uma nova franquia.

Nota da crítica

3.5/5

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Marcelo Müller é crítico de cinema, membro da ACCRJ - Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro - RJ. Além disso, comenta semanalmente as principais estreias cinematográficas na Rádio Nacional do Rio AM 1130.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: The Autopsy of Jane Doe

PAÍS DE ORIGEM: EUA/Inglaterra

ANO: 2017

DURAÇÃO: 86 min

GÊNERO: Horror, Mistério, Thriller

DIREÇÃO: André Øvredal

ROTEIRO: Ian B. Goldberg, Richard Naing

FOTOGRAFIA: Roman Osin

MONTAGEM: Peter Gvozdas, Patrick Larsgaard

MÚSICA: Danny Bensi, Saunder Jurriaans

ESTÚDIO: 42, IM Global, Impostor Pictures

PRODUÇÃO: Rory Aitken, Fred Berger, Eric Garcia

ELENCO: Brian Cox, Emile Hirsch, Michael McElhatton, Ophelia Lovibond, Olwen Catherine Kelly, Jane Perry, Parker Sawyers, Yves O'Hara, Mark Phoenix

Sinopse

Tommy Tilden e seu filho, Austin, são os responsáveis por comandar o necrotério de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Os trabalhos que recebem costumam ser muito tranquilos por causa da natureza pacata da cidade. Mas, certo dia, o xerife local traz um caso complicado: uma mulher desconhecida foi encontrada morta nos arredores da cidade. Conforme os dois tentam descobrir a identidade da mulher morta, coisas estranhas e perigosas começam a ocorrer, colocando a vida deles em perigo.

Curiosidades

- Festival de Toronto 2016: selecionado para a mostra Midnight Madness;

- Austin Fantastic Fest 2016: premiado como Melhor Filme;

- Mesmo diretor de O Caçador de Troll (2010);

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