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Papo Delas :: Moonlight e a Arte Política

14/03/2017     Por Marina Paulista

 

Gafes à parte, o Oscar de Melhor Filme dado a Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) levantou uma série de discussões. Embora o longa de Barry Jenkins tenha se tornado o queridinho da crítica nos últimos meses – ultrapassando até o suposto favorito da premiação, La La Land: Cantando Estações (2016) – algumas pessoas passaram a argumentar que a vitória do filme foi mais uma afirmação política (leia-se “politicamente correta”) do que uma gratificação sincera pela qualidade do trabalho do cineasta.

Não é muito difícil entender de onde vem esse raciocínio. A cerimônia do ano passado aconteceu em meio a uma chuva de reclamações; não havia uma única pessoa que não fosse branca entre os indicados aos prêmios principais, fato que inspirou a campanha #OscarsSoWhite. A Academia ouviu seus críticos e fez um notável esforço para aumentar a diversidade entre os votantes. Quando as indicações deste ano foram anunciadas, já foi possível notar grande progresso nessa questão, com praticamente todas as categorias visivelmente mais diversas. Parece fazer sentido, então, que a Academia tenha dado o maior prestígio da noite a Moonlight, um filme que não só foi escrito, dirigido e estrelado por profissionais negros, como também aborda a questão LGBT (esta foi, aliás, a primeira obra com protagonista LGBT a ganhar o prêmio de Melhor Filme), numa tentativa de provar ao público que a instituição não é preconceituosa, racista ou homofóbica.

Se esse foi o caso ou não, é irrelevante. Não é justo tentar tirar o mérito de Jenkins, que fez um trabalho excepcional em todos os aspectos, ao classificar Moonlight como um filme militante, uma obra que existe para levantar esta ou aquela bandeira. Ora, é impossível separar arte e política; logo, todo filme é político.O problema, entretanto, é que a indústria do entretenimento tem sido dominada por gente muito parecida há muitos anos: a esmagadora maioria é composta por homens brancos, heterossexuais e cisgênero. A desigualdade é tamanha que passamos a ler histórias sobre pessoas que se encaixam nesses atributos como se fosse algo neutro, que funciona como uma folha em branco na qual a audiência pode projetar suas próprias características. É como se filmes feitos por quem se encaixa no padrão fossem para todos, enquanto os que ficam de fora viram obras de nichos específicos. Se mulheres, membros da comunidade LGBT e pessoas das mais variadas etnias são tocadas todos os dias por histórias sobre gente que não é como elas, por que o oposto não pode acontecer?

É muito fácil encontrar exemplos claros desse fenômeno: basta olhar os comentários de qualquer trailer dos últimos lançamentos da série Star Wars, Rogue One (2016) e O Despertar da Força (2015). Dos oito filmes da saga lançados até agora (sem levar em consideração os spin-offs centrados em Ewoks e o famigerado Especial de Natal), seis são protagonizados por homens, o que não impediu que milhares de garotas e mulheres se tornassem fãs da franquia e criassem vínculos emocionais com os personagens. As novas produções, entretanto, trouxeram mulheres (que, anteriormente, tinham pouquíssimo destaque) à frente de suas narrativas e causaram revolta em um número alarmante de fãs que acusam a Disney de contribuir para uma “conspiração feminista” e servir a uma agenda da “ditadura do politicamente correto”.

Os grandes conglomerados midiáticos compreenderam que o público de hoje está começando a exigir diversidade e já não tolera mais os estereótipos sexistas, racistas, homofóbicos, e transfóbicos de alguns anos atrás. Essa iniciativa pode partir de um desejo real de mudança do cenário do entretenimento ou simplesmente de uma estratégia para vender uma imagem progressista de determinada empresa, mas não importa. O fato é que o mundo está mudando e o cinema, evidentemente, deve mudar com ele.

E se a sétima arte é mesmo uma máquina de empatia, como dizia o mestre Roger Ebert, certamente conseguimos nos identificar com um homem negro e homossexual com a mesma facilidade com a qual compreendemos os conflitos de Mia e Sebastian em La La Land, por exemplo. E se somos capazes de entender a jornada de Luke Skywalker, por que não poderia acontecer o mesmo com Rey? Há, ainda, um longo caminho a trilhar. Mas, se o #OscarsSoWhite provou que dar espaço para artistas diferentes traz ótimos e diversos frutos, talvez a campanha #OscarsSoMale seja capaz de nos fazer dar alguns passos rumo à equidade de gênero no cinema. Não custa sonhar.


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Marina Paulista cursa Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo e é editora do blog Cine Brasil.

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