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Um estadista em Hollywood

11/10/2011     Por Tanira Lebedeff

 

Já me acostumei a ser apresentada assim: “Esta é minha amiga jornalista que entrevistou o George Clooney”. Confesso, não me importo nem um pouco com o título. Afinal a profissão me dá o privilégio de conhecer muita gente bacana. Eu me sinto como uma vampirinha, me alimento de e aprendo com a experiência dos entrevistados.

A primeira vez que conversei com GC foi durante o lançamento do filme Solaris. Ele vestia jeans escuro e uma camiseta de malha preta, simplinho assim. Despretensioso. Sentou-se à mesa cercado de jornalistas estrangeiros, apoiou os cotovelos nas pernas, e falou. Lembro que ele mexia a cabeça acompanhando o ritmo das frases, como um italiano faria com as mãos. Como dizem nos esteites, o cara é “easy on the eyes”. E é daqueles que têm prazer de falar sobre seu ofício.

Fui logo perguntando sobre o que eu achava ser puro folclore: ele tinha mesmo um porco de estimação? Tinha. Max era da raça vietnaminta pot-bellied e pesava mais de cem quilos. “Se comparar com outros porcos, Max tem um porte atlético, é charmoso, mas ainda é um porco. Acorda de manhã e fica grunhindo”, ele contou. Max viveu na mansão em Los Angeles durante 18 anos – o que foi descrito pela imprensa como o relacionamento mais duradouro de GC.

Solaris é um filme do tipo “cabeça”, uma versão de um clássico do cinema russo, e retrata bem o estilo da parceria firmada entre o ator e o diretor Steven Soderbergh. “A única maneira de fazer filmes desse tipo é ganhando quase nada de dinheiro. Só assim um estúdio toparia. Depois você faz um Onze Homens e Um Segredo para compensar”, explicou Clooney.

Através da Section Eight Productions, Clooney e Soderbergh filmaram roteiros mais elaborados e com conteúdo político, como Confissões de Uma Mente Perigosa, Boa Noite e Boa Sorte, e Syriana. Os dois últimos renderam a GC três indicações ao Oscar em 2006; ele ficou com o de Ator Coadjuvante por Syriana, um thriller político sobre a indústria do petróleo – incrivelmente relevante em tempos de guerra no Iraque.

É importante lembrar que para encarnar Bob Baer, o agente da CIA que questiona sua missão e seus patrões às vésperas da aposentadoria, Clooney se despiu de sua imagem de sex symbol, engordou uns 14 quilos, ganhou uma barriga e deixou a barba crescer. Numa cena de tortura, repetida dezenas de vezes, dispensou os dublês e acabou com uma lesão na bolsa do fluído espinhal que o deixou um bom tempo afastado dos sets.

E assim George Clooney virou sinônimo de credibilidade em Hollywood. “No momento em que Clooney assumiu o projeto tivemos a certeza de que faríamos o filme que queríamos fazer”, disse o diretor Tony Gilroy. Ele comentava a importância da “marca Clooney” em Michael Clayton, que no Brasil recebeu o título de Conduta de Risco. Clooney foi o produtor executivo e um dos protagonistas. O filme foi lançado no Festival de Cinema de Toronto, no Canadá, em 2007. E eu estava lá, faceira – pronta para abordar GC mais uma vez…

Chegamos atrasados na premiére, quando ele começava a atravessar o tapete vermelho, todo garboso de camisa e terno pretos. Encontrei uma brecha no espaço reservado para a imprensa e apontei o microfone em sua direção. Gentleman que é, Clooney percebeu meu afobamento e parou para conversar. Brevemente, pois eu estava na posição errada, entre os fotógrafos e não entre as equipes de TV como deveria. Mas ele parou. Elogiou o roteiro e comentou o quão difícil era encontrar um assim, inteligente. Eu aproveitei e elogiei sua boa forma – ele estava mesmo radiante! “É, me sinto realmente bem. Bom te ver”, respondeu. E lá se foi George Clooney enfrentar o batalhão de jornalistas.

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“George Clooney está pronto para você.” Tá aí uma frase que a gente não escuta todo o dia. Era a assessora de imprensa avisando que chegara a minha vez. Nas maratonas de promoção dos filmes, as chamadas junkets, os estúdios de cinema reservam andares inteiros de hotéis e lá instalam suas salas de entrevista. Em alguns quartos montam mini estúdios de TV onde ficam os atores, diretores e produtores esperando pelos jornalistas, que se revezam.

Era o lançamento de O Amor Não Tem Regras, uma comédia romântica que ele dirigiu – enquanto também atuava. A arte da direção, disse Clooney, foi afinada observando Soderbergh e os Irmãos Coen nos sets.  Além de atuar em diferentes frentes da indústria do cinema, a comédia proporcionou outro exercício fundamental para todo ator: “Depois de Boa Noite e Boa Sorte e Syriana eu só recebia roteiros com cunho político. Fazer uma comédia foi uma questão de sanidade e importante para minha carreira. Não quero ficar preso a um gênero”, ele comentou.

Quem começou a carreira com um filme de terror B não pode reclamar de falta de diversidade. Nos últimos anos ele fez comédia (a ótima Queime Depois de Ler), dramas como Amor sem Escalas (que, ao contrário do que o título sugere, não é exatamente um romance mas uma crônica sobre a crise do desemprego nos EUA) e o thriller Um Homem Misterioso. Mas foi um drama político que o levou de volta ao circuito dos festivais de cinema esse ano: Tudo pelo Poder, sobre os bastidores de uma campanha à presidência dos Estados Unidos, foi escrito, dirigido e protagonizado por Clooney.

Essa preocupação, a de não ficar atrelado a temas urgentes e politizados, é reservada apenas para as telas. Na “vida real” George Clooney é o que a revista Newsweek define como um “estadista do século XXI”, um ativista que usa a fama como ferramenta para a diplomacia.

Sua causa é o genocídio em Darfur e a crise humanitária no Sudão. Ele chegou a investir num satélite para monitorar o movimento das tropas entre o norte mulçumano e o sul cristão, e fundou a ong Sudan Now para cobrar ações enérgicas da ONU e sugerir caminhos para a paz.

É Clooney quem brifa o Senado norte-americano e o Conselho de Segurança da ONU em questões sudanesas. Já fez inúmeras viagens à região (“Gostaria que os paparazzi me seguissem até lá”, disse à imprensa americana) e numa delas contraiu malária. Como faria com um personagem – não poupando esforços para mostrar a que veio.

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“Eu olho para trás e tenho, sim, arrependimentos”, George Clooney filosofou naquela minha primeira entrevista com ele. Em Solaris ele interpreta um psiquiatra que reencontra um grande amor (que já morreu) numa estação espacial tomada por fenômenos estranhíssimos. Que tal a chance de reviver e reescrever algum capítulo da sua vida? “É uma ótima pergunta!”, responde Clooney.

O arrependimento de Clooney pode ser Batman & Robin. Ou, pelo menos, o close up em seu bumbum, naquele uniforme justinho de super-herói.  Mas talvez não seja, porque a cena lhe serve como material de piada até hoje.

“Há coisas que eu gostaria de mudar. No entanto, nunca estive tão saudável e tão feliz como agora”, ele avalia, como que pensando alto. “Todos aqueles equívocos, de alguma maneira, podem ter me trazido até onde estou. Se eu voltasse no tempo, talvez o rumo fosse diferente – e então eu não estaria aqui. Acho melhor não mexer nisso…”

Nós também, George. Nós também.


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Tanira Lebedeff é jornalista. Escreveu roteiros para documentário e curtas, um deles premiado com o Candango do Festival de Brasília. É autora do livro "A Velhinha que Entrevistou George Clooney". Foi correspondente em Los Angeles por uma dezena de anos.

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