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O feminino e o masculino no cinema de Paul Verhoeven

26/11/2016     Por Wallace Andrioli

 

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O Quarto Homem (1983), último longa que Paul Verhoeven dirigiu na Holanda antes de migrar para Hollywood, começa com uma aranha devorando impiedosamente as moscas presas em sua teia. Essa imagem remete à relação entre o protagonista e a femme fatale com quem ele se envolve ao longo da narrativa, mas trata-se, também, de uma competente síntese da representação feminina no cinema de Verhoeven. As protagonistas de filmes como Instinto Selvagem (1992), Showgirls (1995) e A Espiã (2006) são, todas, mulheres-aranha, potentes, ativas, que manipulam (e devoram) os homens que as cercam mesmo quando eles parecem estar no controle.

Elle, novo filme de Verhoeven, exacerba essa característica. Sua protagonista, Michèle Leblanc (Isabelle Huppert, em grande interpretação), surge em cena numa posição de extrema vulnerabilidade, sendo estuprada por um homem mascarado dentro de sua própria casa. Logo em seguida, no entanto, Michelle é apresentada pelo filme como uma mulher forte, que comanda com mão de ferro sua empresa (de videogames) enquanto manipula, por vezes humilha, os homens que orbitam ao seu redor: o ex-marido, o filho fraco que também é controlado pela esposa, o marido de sua sócia e, a partir de determinado momento, o vizinho casado que se mostra entediado com a cônjuge excessivamente católica. Falta a Michèle apenas dominar aquele que a dominou a força, o estuprador desconhecido, e ela faz de tudo para atrai-lo para sua vida, sua teia, para enfim também devorá-lo.

É até certo ponto compreensível que muitos enxerguem misoginia em Elle, considerando a maneira como Verhoeven apresenta sua protagonista, uma mulher, no limite, detestável, a ser temida. No entanto, o caso parece ser mais de uma admiração incontida por parte do diretor, um fascínio diante da capacidade feminina de adaptação e sobrevivência num mundo extremamente hostil. Não é à toa que ele dedica tempo considerável de seu filme para contar o passado de Michèle, explicando as razões para o comportamento da personagem, aderindo assim a ela. As mulheres do cinema de Verhoeven, aliás, geralmente estão em posições de grande vulnerabilidade, oprimidas e ameaçadas por homens mais fracos que elas, sendo impelidas à sobrevivência a qualquer custo. É o que acontece com a Nomi (Elizabeth Berkley) de Showgirls, com a Ellis (Carice van Houten) de A Espiã, com a Keetje (Monique van de Vem) de O Amante de Kathy Tippel (1975), mesmo com a Catherine Trammel (Sharon Stone) de Instinto Selvagem,  e com a Agnes (Jennifer Jason Leigh) de Conquista Sangrenta (1985). Esta última, como Michèle em Elle, é violentada em determinado momento do filme e joga com o estuprador (Rutger Hauer), simulando afeto a ele para ganhar proteção diante da iminência de um estupro coletivo.

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É claro que violência sexual não é um jogo e sim um ato de pura agressividade, de exercício de força sobre alguém em posição inferior. Mas vale ponderar que em nenhum dos filmes de Verhoeven o estupro perde sua brutalidade. Os referidos momentos de Conquista Sangrenta e Elle são, ambos, muito violentos, como são também violentos os estupros sofridos por outras personagens no cinema do diretor – há cenas do tipo também em O Amante de Kathy Tippel, Sem Controle (1980), Instinto Selvagem, Showgirls e O Homem sem Sombra (2000). O que ocorre nesses dois casos específicos é que Verhoeven parece, a partir de certo ponto, não estar mais falando da violência sexual sofrida por suas personagens, mas da imensa capacidade de reação delas, já que as mulheres são, sempre, infinitamente mais fortes que seus agressores – e não deixa de ser curioso que no único estupro sofrido por um homem no cinema de Verhoeven, em Sem Controle, o sujeito se apaixone de fato por seu algoz, ao contrário do que fazem Michèle e Agnes, que estabelecem relações dúbias com aqueles que as violentaram e, ao fim, causam a morte deles.

O que leva à necessária observação de como o diretor lida com o masculino em seu cinema. Quando não são agressores de mulheres que se revelam profundamente fracos nas relações com elas – mesmo em O Vingador do Futuro (1990), Douglas Quaid (Arnold Schwarzenegger) é manipulado por sua suposta esposa (Sharon Stone) e, ao confrontá-la, quase morre, sendo salvo por outra mulher (Rachel Ticotin) – , os homens de Verhoeven são figuras vazias, protótipos fascistóides que fazem da violência e das armas uma espécie de compensação fálica de seu fracasso. Podem ser vistos dessa forma os protagonistas de dois dos mais famosos filmes de ação que Verhoeven realizou em Hollywood: Robocop: O Policial do Futuro (1987) e Tropas Estelares (1997). O primeiro é um homem-máquina que carrega uma imensa pistola (substituta de seu órgão sexual, já inexistente?) e está a serviço de uma corporação comandada por crápulas engravatados e de uma noção tacanha de lei e ordem; o segundo é um jovem militar que reproduz jargões de um governo fascista e tem na guerra sua razão de ser.

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O olhar de Paul Verhoeven para o homem é, portanto, claramente depreciativo. As mulheres, por sua vez, são vistas com algum espanto, mesmo medo, por representarem uma força e uma beleza inalcançáveis pelo masculino – e a cena final de Elle, com Michèle e sua sócia, é exemplar nesse sentido, pela maneira como o diretor parece assustado, quase não compreendendo a cumplicidade que ainda existe entre aquelas duas figuras. Algo como a aranha que abre O Quarto Homem, ao mesmo tempo bela e pavorosa.


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Wallace Andrioli é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.

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